3 de Julho de 2014 / às 23:50 / 3 anos atrás

Ampla oferta traz incerteza para exportações de milho do Brasil no 2º semestre

SÃO PAULO (Reuters) - O mercado brasileiro de milho deve viver um segundo semestre turbulento, com uma ampla oferta global provocando fragilidade nos preços e incerteza sobre volumes a serem exportados pelo país, em cenário bem diferente do registrado na segunda metade de 2013.

Os principais Estados produtores estão começando a colher a segunda safra da temporada 2013/14 que, apesar de não ser recorde como a do ano passado, está muito perto disso.

O governo projeta colheita de 77,9 milhões de toneladas, pouco abaixo do volume histórico de 81,5 milhões produzido em 2013/14.

Boa parte desse milho chegará ao mercado quase junto com uma safra recorde dos Estados Unidos, maior exportador e grande concorrente do Brasil.

Neste contexto, os preços domésticos e internacionais estão despencando, tornando menos certa a posição no Brasil no mercado externo.

“Produto vai ter e a logística está tranquila. O que falta mesmo é preço competitivo e demanda”, disse uma analista de pesquisa de uma trading internacional que atua no Brasil.

Ao longo de 2013, quando os estoques nos EUA ainda estavam reduzidos após a safra prejudicada pelo clima, muitos compradores internacionais voltaram-se para o Brasil, que registrou exportações recordes, de mais de 26 milhões de toneladas.

Em 2014, a situação parece ser diferente.

Desde o início do ano comercial, em fevereiro, até o fim de junho, o Brasil embarcou 2,42 milhões de toneladas de milho. No mesmo período de 2013, foram embarcadas mais que o dobro, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior divulgados esta semana.

Tradicionalmente, é no segundo semestre, a partir de agosto, que os embarques de milho aceleram. A dúvida de alguns analistas é se o ritmo nos próximos meses será suficiente para atingir as estimativas de embarques de 21 milhões de toneladas feitas pelo Ministério da Agricultura.

Dados da SA Commodities, que monitora o movimento nos portos brasileiros, mostram que atualmente há seis navios escalados para buscar milho em terminais brasileiros nas próximas semanas. Um ano atrás, a escala de navios tinha 33 embarcações.

“Temos que embarcar, de julho a janeiro, 2,5 milhões de toneladas por mês... Só que não tem essa demanda”, disse o especialista em milho Paulo Molinari, da consultoria Safras & Mercado.

Na avaliação de Molinari, o Brasil terá que exportar 20 milhões de toneladas até o fim da temporada, porque os armazéns precisam ser esvaziados para a safra de soja, no verão.

“Temos que buscar exportação com preço bom ou preço ruim”, disse.

A tendência para os preços, tanto no Brasil como no mercado internacional --balizado pela bolsa de Chicago-- é de baixa.

O contrato dezembro do milho em Chicago, uma referência para a nova safra, já acumula perdas de 19 por cento desde que atingiu a máxima do ano, no início de abril.

As cotações estão cada vez mais pressionadas pelas boas perspectivas para a safra dos Estados Unidos, onde o clima está ajudando o desenvolvimento das lavouras que começam a ser colhidas a partir de setembro e outubro.

Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o país deverá colher, pela segunda temporada consecutiva, uma safra recorde de 353 milhões de toneladas.

No início da semana, o USDA divulgou estimativas de estoques acima das projeções do mercado, ajudando a derrubar preços.

Com ampla oferta e preços em queda, os Estados Unidos são um exportador muito competitivo, uma vez que dispõe de logística facilitada para fornecer aos compradores do México, Ásia e América do Sul.

No Brasil, a temporada 2013/14 também deverá encerrar com maiores estoques, disse nesta quinta-feira a consultoria FCStone.

A relação entre estoque e uso foi elevada para 14,7 por cento, ante 10,8 por cento, na safra 2012/13.

PREÇOS AO PRODUTOR

Em meio ao cenário de ampla oferta e demanda reduzida, os preços pagos aos produtores brasileiros não param de cair.

O indicador Cepea/Esalq, referência para os negócios à vista no país, acumula perdas de mais de 27 por cento desde a máxima do ano, em meados de março.

Em Sorriso, no coração do médio-norte de Mato Grosso, a principal região produtora de milho do país, os preços ao produtor estão na faixa de 11 reais por saca, segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea).

O produto acumula perda de 36 por cento em um mês e já está abaixo do preço mínimo estabelecido pelo governo, de 13,56 reais por saca.

A situação levou a Aprosoja MT, associação que reúne produtores de Mato Grosso, a pedir esta semana que o Ministério da Agricultura realize leilões do Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro), um mecanismo de sustentação de preços em que o governo paga ao agricultor a diferença entre o preço mínimo e o obtido na hora da venda.

“Com os atuais prêmios internacionais praticados, o Brasil é competitivo, no entanto sem o ‘prêmio’ (Pepro) a ser pago ao produtor, o setor exportador não origina produto”, alertou a analista Andrea Cordeiro, da corretora Labhoro.

O presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes, também destacou o risco de os produtores segurarem seus estoques de milho caso não haja aplicação de mecanismos de preço mínimo.

“Tem milho ‘saindo pelo ladrão’... mas precisa fazer Pepro senão não dá escoamento para essa safra”, disse o executivo, que representa algumas das maiores tradings do país.

O Ministério da Agricultura afirmou que recebeu o pedido da Aprosoja para a realização de leilões de Pepro, mas ainda analisa a questão.

“A gente tem por obrigação, toda vez que os valores caírem abaixo do preço mínimo, utilizar os mecanismos para a comercialização... Isso não significa dizer que a gente vai fazer, mas temos monitorado esses processos”, disse à Reuters o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Seneri Paludo.

A Aprosoja estima que 75 por cento da safra 2013/14 de milho de Mato Grosso ainda não tenha sido comercializada, no aguardo de melhores condições de preços.

Mesmo com o cenário turbulento, há espaço para otimismo.

Para Pedro Dejneka, presidente da consultoria AGR Brasil, em Chicago, as medidas do governo são “praticamente inevitáveis” e deverão permitir que o Brasil exporte grandes volumes do cereal.

“Com as ações do governo para subsídio no milho e a necessidade de escoamento de produto por falta de armazéns, o Brasil poderá exportar entre 22 e 24 milhões de toneladas ainda durante o ano comercial que termina no final de fevereiro de 2015”, disse.

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