ANÁLISE-Ajustes fiscais pioram expectativas de inflação, mas são aplaudidos

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015 16:52 BRST
 

Por Flavia Bohone

SÃO PAULO (Reuters) - O custo está cada vez mais alto, mas vai valer a pena mais para frente. A frase pode resumir o atual cenário econômico, em que o governo vem anunciando medidas fortes de ajuste fiscal, piorando as expectativas de inflação e reforçando ainda mais a sensação de que ela vai estourar o teto da meta neste ano.

Mas todos os especialistas consultados pela Reuters são unânimes em defender que essa é a saída para que o país volte aos trilhos para ter crescimento sustentável e preços sob controle, ainda que demore um pouco.

"Este ano é preciso fazer uma arrumação para permitir melhorias mais para frente", resumiu o economista do Itaú Unibanco Elson Teles, que vai piorar sua projeção do IPCA deste ano --de alta de 6,5 por cento, por enquanto.

Segundo ele, essa "arrumação" vai permitir que a inflação oficial recue em 2016. Por enquanto, calcula a alta de 6 por cento, mas também já adiantou que vai revisá-la e, neste caso, para baixo.

Em poucas semanas, a nova equipe econômica neste segundo mandado da presidente Dilma Rousseff --encabeçada pelos ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento), além do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini-- já tirou do papel ações que cortaram subsídios e certamente vão pressionar os preços.

A mais pesada foi a decisão de não bancar mais os elevados custos do setor elétrico, passando aos consumidores a tarefa que pode levar a aumentos de cerca de 40 por cento nas tarifas só neste ano. Tudo isso para tentar colocar em ordem as contas públicas do país, bagunçadas nos últimos anos pelos excessos de subsídios e manobras fiscais, que minaram a confiança dos agentes econômicos.

"Se o governo quiser realmente enfrentar uma escolha fiscal que exige alta de tarifas e fim de subsídios, não é possível cumprir o teto da meta (de inflação neste ano)", disse o economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall, que foi secretário do Tesouro Nacional no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), assim como Levy, e prevê o IPCA subindo 7,2 por cento neste ano.

Para Kawall, os preços finais da energia elétrica devem subir 38 por cento neste ano devido a essas mudanças, com impacto de mais de 1 ponto percentual na inflação.   Continuação...

 
REUTERS/Ueslei Marcelino (BRAZIL - Tags: POLITICS BUSINESS)