6 de Março de 2015 / às 11:49 / em 3 anos

Produtividades estagnadas são desafio para produtores de soja de Mato Grosso

QUERÊNCIA, Mato Grosso (Reuters) - Produtores de soja de Mato Grosso colhem este ano uma safra recorde, mas as produtividades de hoje são praticamente as mesmas de 15 anos atrás, enquanto no Sul do país os rendimentos crescem sistematicamente, provocando questionamentos entre agricultores e especialistas sobre os rumos da agricultura no principal Estado produtor de grãos do Brasil.

“Dez anos atrás a propaganda era que hoje estaríamos colhendo 70 sacos por hectare de média”, disse, frustrado, o produtor Vilson Rockembach, de Querência, no nordeste de Mato Grosso, que este ano está alcançando 55 sacas por hectare.

Os dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que as produtividades de Mato Grosso cresceram apenas 3 por cento na comparação da safra atual (2014/15) com a de 14 anos atrás (2000/01), levando-se em conta uma média móvel de três temporadas, a fim de suavizar as estatísticas de anos de quebras provocadas pelo clima.

No mesmo período, o rendimento no Rio Grande do Sul saltou 46 por cento, o do Paraná avançou 15 por cento e a média brasileira subiu 17 por cento.

Na virada do século, os gaúchos colhiam cerca de 31 sacas por hectare, enquanto os mato-grossenses colhiam quase 19 sacas a mais. Na média dos últimos três anos, no entanto, a vantagem da produtividade de Mato Grosso sobre o Rio Grande do Sul caiu para 6 sacas por hectare.

Apesar de uma certa frustração entre os produtores do nordeste de Mato Grosso, eles não podem reclamar de clima nesta safra 2014/15. O período prolongado sem chuvas que afetou outras regiões de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás não se repetiu por aqui. Também não deixaram de investir em adubação.

Por isso, para muitos agricultores, a explicação para as produtividades estagnadas estaria nas novas variedades de sementes, muitas delas resultado de complexas modificações genéticas.

“Estou plantando em Querência há 20 anos. Os materiais tradicionais (não transgênicos) que planto há 12 anos são os que têm tido as melhores produtividades este ano”, disse o agricultor Neuri Wink. “As minhas produtividades médias estão estagnadas.”

Especialistas ouvidos pela Reuters disseram, no entanto, que a razão do fenômeno é mais complexa do que simplesmente a escolha de sementes.

“São várias hipóteses... Com certeza a entrada de novos genes dificulta o crescimento das produtividades, porque dificulta achar a variedade ‘vencedora’ (para cada fazenda), embora se ganhe muito na facilidade dos tratos culturais”, disse Francisco Soares, diretor da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT), que é ligada à TMG, uma empresa de desenvolvimento de novas cultivares de soja.

Por outro lado, uma mudança no planejamento de plantio nos últimos anos, com um foco na antecipação de colheita, também pode ter prejudicado o incremento das produtividades.

Muitos agricultores têm trabalhado para viabilizar a semeadura de uma segunda safra de milho. A colheita da chamada “safrinha” cresceu 12 vezes nos últimos 15 anos em Mato Grosso e no Brasil, segundo a Conab.

“Sempre há exceção, mas eles (produtores de Mato Grosso) não estão plantando na melhor época e nem sempre usam as melhores variedades, com maior potencial produtivo para a região”, destacou o chefe de transferência de tecnologia da Embrapa Soja, Alexandre Cattelan. “Como querem materiais de ciclo muito curto, muitas vezes essas não são as sementes com melhores produtividades.”

CLIMA

Mato Grosso é conhecido por ter um regime de chuvas mais regular que o do Sul do país, onde as quebras de safra motivadas por secas são muito mais frequentes. A safra 2014/15, no entanto, tem sido excelente para as lavouras do Rio Grande do Sul e de muitas regiões de Santa Catarina e Paraná.

Técnicos da consultoria Agroconsult estão percorrendo nas últimas semanas praticamente todas as regiões produtoras do país com a expedição técnica Rally da Safra. As produtividades no Sul têm chamado a atenção das equipes.

“Vimos claramente que em anos favoráveis no Sul do país é comum escutar relatos de produtores colhendo áreas acima de 75 sacos por hectare. Mas no Centro-Oeste é mais difícil encontrar produtores reportando produtividades tão altas, mesmo que sejam em talhões pequenos”, disse o analista Marcos Rubin, da Agroconsult.

Os dados históricos da Conab comprovam que o Paraná, em anos sem seca, tem conseguido superar os resultados obtidos em Mato Grosso. O Estado do Sul teve melhores produtividades em quatro das últimas seis safras, incluindo a atual. Isso havia acontecido apenas uma vez nas dez safras anteriores.

SOLO E NOVAS ÁREAS

As características de solo do Centro-Oeste, onde as lavouras se expandiram sobre áreas de Cerrado, também ajudam a explicar as dificuldades para um crescimento de produtividade mais rápido em Mato Grosso.

“Não dá para comparar o solo do Paraná com o de Mato Grosso. Aqui é diferente”, diz o engenheiro agrônomo Rodrigo Fenner, gerente de um laboratório de análises de solo em Querência. “O solo do Paraná é mais argiloso e consegue segurar mais os nutrientes e matéria orgânica. Aqui, o solo perde mais rapidamente.”

O desempenho do solo fica mais evidente nas novas áreas de plantio. E em termos de expansão, o Mato Grosso é campeão. Desde 2000/01, a área com soja no Estado triplicou, chegando a 9 milhões de hectares nesta temporada.

“Áreas novas, de primeiro ano, em que a correção de solo não fez o efeito adequado, derrubam as médias (de produtividade)”, disse o diretor técnico da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja), Nery Ribas.

RENTABILIDADE

A questão das produtividades não é um mero indicador ou um fator de orgulho para os agricultores que conseguem atingir os melhores índices. Em 2015, isso pode significar também a saúde financeira dos produtores, já que os custos estão cada vez mais elevados, e os preços cada vez mais baixos.

Os contratos futuros de soja na bolsa de Chicago apontam atualmente cotações na faixa de 9 dólares por bushel em todos os vencimentos até 2018, bem abaixo dos mais de 17 dólares registrados em 2012 e 15 dólares de meados do ano passado.

Por outro lado, o dólar valorizado ante o real, que consegue compensar em parte a queda na rentabilidade para os exportadores brasileiros, deverá começar a ser fortemente sentido na compra de insumos importados, como fertilizantes e defensivos, já nos próximos meses.

“Nos últimos anos os preços elevados favoreceram as margens, mesmo em um ambiente de produtividade estagnada. Mas em anos de ciclos de preços baixos, como provavelmente os próximos dois, a produtividade torna-se essencial para superar as margens apertadas”, disse Rubin, da Agroconsult.

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