Com austeridade, retomada deve ser mais lenta em Estados mais pobres

quarta-feira, 23 de novembro de 2016 11:33 BRST
 

Por Silvio Cascione e Leonardo Goy

BRASILIA (Reuters) - Na Cohab de Salgueiro, semiárido pernambucano, Maria Adelaide dos Santos aguarda o final do mês. Dona de uma loja de roupas e calçados, ela espera pelo dia do pagamento de servidores públicos para reforçar as vendas.

Alguns vêm, mas não levam nada. Apenas acertam o fiado.

"O desemprego ficou muito grave. A cidade está vivendo de funcionário público municipal e dos comerciantes, porque não temos fábrica", disse Maria, 48, mãe de três filhos.

Obras federais como a transposição do rio São Francisco e a ferrovia Transnordestina empregavam milhares de salgueirenses até pouco tempo. Assim como em cidades e regiões vizinhas, o governo sempre foi o provedor número 1 de emprego, crédito e infraestrutura, além de saúde e educação.

Mas o dinheiro secou. Em muitas das regiões mais pobres do país, onde o setor privado não vê oportunidades, a perspectiva de anos sem aumento do gasto público é paralisante.

"Para o Nordeste, é cruel", disse o prefeito de Salgueiro, Marcones Libório de Sá (PSB), sobre a proposta do presidente Michel Temer de impor um limite para os gastos federais pelos próximos 20 anos. A chamada PEC 55 deve ser aprovada no Congresso em dezembro.

Em 15 Estados, mais da metade dos 27 do Brasil, os salários pagos pelo setor público representam diretamente mais de um quinto da Produto Interno Bruto (PIB) local, sem contar efeitos indiretos sobre o comércio e serviços. Em Roraima e Amapá, o Estado representa praticamente metade da atividade econômica, enquanto que em São Paulo, o mais rico e populoso do país, os salários públicos representam apenas 10 por cento do PIB.

A dependência do setor público é maior justamente no Norte e no Nordeste, em Estados com os menores índices de desenvolvimento humano e renda por habitante.   Continuação...

 
Lago visto em Salgueiro, semiárido pernambucano.     26/10/2016            REUTERS/Ueslei Marcelino