ESPECIAL-Bilhões de reais e 10 anos depois, Transnordestina leva a lugar nenhum

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016 16:07 BRST
 

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Por Leonardo Goy

SALGUEIRO, Pernambuco (Reuters) - O corte reto e metalizado traçado pela ferrovia no horizonte destaca a Transnordestina em meio à seca paisagem sertaneja, tão familiar ao agricultor Francisco Emiliano, de 58 anos, que viu a obra ser lançada em 2006 e testemunha diariamente o silêncio da linha inacabada, onde já não há mais operários trabalhando e nem passa trem algum.

Ao longo dos 10 anos de sua atrasada obra, que já consumiu mais de 6 bilhões de reais, a ferrovia Transnordestina passou de símbolo da promessa de um Nordeste e de um Brasil que não parariam de crescer para um catálogo de retratos de abandono, tanto onde a linha está pronta, mas sem operar comercialmente, como nos canteiros de obra deixados para trás quando o dinheiro parou de entrar.

O futuro da ferrovia, que era um dos principais projetos de infraestrutura do país, com mais de 1,7 mil quilômetros de traçado, segue incerto. As dúvidas persistem mesmo depois da aguardada medida provisória das concessões, publicada no mês passado, que cria mecanismos para devolução negociada de contratos à União, para serem relicitados, e da promessa de mais dinheiro do governo federal anunciada na última terça-feira..

O projeto ainda precisa de bilhões de reais para ser concluído. Além disso, a obra está sob a mira do Tribunal de Contas da União (TCU) pela legalidade do contrato que deu à concessionária controlada pela CSN CSNA3.SA o direito de tocar e gerenciar o projeto, por questões licitatórias e eventual disparidade de valores.

O que se vê atualmente no percurso por onde passariam vagões carregados, principalmente de minérios e grãos, é um legado de desolação e desemprego no sertão castigado por uma estiagem que já dura cinco anos.

“Até agora, a obra parou aqui. Depois continua só a estrada carroçal (de terra). Se estivesse pronta ia ser bom demais. Ia chegar combustível mais barato, emprego para o povo. Está tudo parado. Tem muito desempregado por aí”, conta Emiliano.

O agricultor, pai de sete filhos, mora perto da cidade de Missão Velha (CE), de 34 mil habitantes, e trabalha cuidando de cerca de 80 cabeças de gado em uma propriedade às margens dos trilhos da Transnordestina.   Continuação...

 
Trecho de obra não concluída da ferrovia Transnordestina em Custódia, Pernambuco. 26/01/214 REUTERS/Ueslei Marcelino