18 de Janeiro de 2017 / às 17:21 / 9 meses atrás

Estagnação nos preços de frete desagrada caminhoneiros e favorece agricultores na safra 2016/17

RONDONÓPOLIS (Reuters) - Caminhoneiros independentes aglomeram-se frente aos escritórios de agenciamento de frete, nos fundos de um posto de combustíveis em Rondonópolis e, com semblantes preocupados, preparam-se para mais uma temporada de margens apertadas no transporte da nova safra de soja do país.

O excesso de oferta de caminhões deverá manter os valores do transporte de grãos relativamente estável nos próximos meses, na comparação com a temporada passada, apesar de uma alta do óleo diesel desde o ano passado, representando maior aperto financeiro para quem trabalha com transporte de cargas, mas uma boa notícia para os agricultores.

“Os valores que estão oferecendo mal pagam os custos... O atual nível de preços é o mesmo de 10 anos atrás, mas naquela época não havia tantos pedágios. Isso desestimula o motorista”, disse o caminhoneiro Mauri Jorge Dalbello, com 36 anos de estrada e dono do próprio caminhão, enquanto olhava os valores afixados nas portas das agências.

O frete entre Rondonópolis, importante polo logístico do setor agrícola de Mato Grosso, até o porto de Paranaguá está estimado em cerca de 230 reais por tonelada para fevereiro. Em fevereiro de 2016, o valor recebido pelos caminhoneiros girava em torno de 240 reais, segundo agenciadores consultados pela reportagem.

Por outro lado, o diesel, que compõe cerca de metade dos custos de cada viagem, acumula alta de 3,1 por cento em Mato Grosso nos últimos 12 meses, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Neste período, pedágios sofreram reajustes nos diversos Estados cruzados pelos veículos de carga e demais insumos, como pneus e manutenção subiram de acordo com a inflação do país.

“A situação não poderia estar pior... A safra já iniciou e os (preços de) fretes estão desanimadores”, disse o diretor-executivo da Associação dos Transportadores de Carga de Mato Grosso, Miguel Mendes, que representa empresas que operam frotas de caminhões.

Com a ajuda de um clima favorável, Mato Grosso saiu na frente na colheita da safra 2016/17, que deverá ser recorde no Estado e no país, totalizando 29 milhões e 103,8 milhões de toneladas, respectivamente, segundo a Conab.

Apesar destes volumes elevados, segundo Mendes, o frete segue pressionado. A origem da questão está em programas de incentivo à compra de caminhões com financiamento subsidiado, criados pelo governo federal no início da década. A situação se agravou ainda mais nos últimos dois anos com a recessão econômica do país, que diminuiu o volume de cargas transportadas pela indústria e pelo comércio.

Muitos dos caminhões que operavam com outros produtos migraram para o agronegócio, cujo volume de grãos é insuficiente para absorver toda a capacidade ociosa existente.

PROTESTOS

Caminhoneiros têm fechado diariamente, desde a sexta-feira, alguns pontos de rodovias federais de Mato Grosso em protesto contra os baixos preços do frete, elevando as tensões em um momento de aceleração da colheita e do escoamento da produção agrícola.

Uma das reivindicações é a aprovação de um projeto de lei que tramita desde 2015 na Câmara dos Deputados para estabelecer uma tabela de preços mínimo para o transporte de cargas.

Apesar de menores do que os bloqueios realizados em 2015 em todo o país, os atos de caminhoneiros nos últimos dias já causam problemas. Além de interrupções parciais na região de Rondonópolis, o principal polo logístico de Mato Grosso, também há fechamento da BR-163 em Nova Mutum, prejudicando o fluxo de grãos naquela que é a principal rodovia de escoamento da safra de Mato Grosso.

LOGÍSTICA

A estagnação nos valores de fretes deverá beneficiar, por outro lado, os agricultores.

Apesar de o transporte de longo curso ser contratado pelas empresas que adquirem e exportam a soja e o milho, trata-se de um custo que é descontado do valor pago ao produtor.

A previsão é que os valores subam um pouco nas próximas semanas na comparação com o período de entressafra, em que há demanda bem mais baixa por frete. Contudo, será um repique mais rápido e menos intenso que em outros anos.

“Vai subir agora, mas vai ser por um período curto. O mês de janeiro, por exemplo, já começou bem abaixo de janeiro do ano passado”, disse o gerente regional da Lontano Transportes, Gelso Lauer.

O setor agrícola sofreu com grandes atrasos e filas de caminhões nos portos três anos atrás, em meio à implantação de uma legislação que limitou a jornada de trabalho dos caminhoneiros e reduziu momentaneamente a capacidade de transporte da frota.

A projeção do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) é de que a safra 2016/17, por seu volume recorde, será um novo desafio para a logística do Centro-Oeste.

Alguns fatores, contudo, devem evitar grandes gargalos nesta temporada, incluindo a grande disponibilidade de caminhões na região. A chegada recente de um ramal ferroviário a Rondonópolis, que passou a ter ligação com o porto de Santos, além do crescente volume de grãos que é canalizado para os novos terminais na região amazônica, desafogando as vias de acesso ao litoral do Sul/Sudeste do país, são boas notícias para os produtores, segundo o superintendente do Imea, Daniel Latorraca.

“Isso tudo foram mudanças que ocorreram desde o último grande gargalo de escoamento de safra”, disse o executivo.

Ainda assim, a logística permanece no radar dos agricultores, que temem repiques de preço, especialmente em meados do ano, quando a safra de soja já estiver colhida e entrar a nova colheita de milho em Mato Grosso.

“Eu me preocupo com o frete. Teremos um grande volume de grãos, o diesel tem subido e as empresas estão buscando recuperação de valores”, disse o diretor do Sindicato Rural de Rondonópolis e produtor de soja Eduardo Tomczyk.

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