Indústria corta uso de café robusta e vê produtor perdendo cliente

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017 14:28 BRT
 

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - A indústria de café torrado e moído do Brasil, segundo maior consumidor global da bebida atrás dos EUA, mudou radicalmente a composição dos seus "blends" diante da crise de oferta do grão verde da variedade robusta (conilon) no país e avalia que os cafeicultores contrários à importação do produto estão dando um tiro no pé.

Isso porque, diante da incerteza sobre oferta futura e com o governo voltando atrás na liberação da importação de café in natura, uma escassez de robusta sem precedentes no Brasil poderá levar a indústria a manter por um tempo maior mais grãos da variedade arábica em "blends", disse um dirigente do setor à Reuters nesta quarta-feira.

Segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Nathan Herszkowicz, antes da crise de oferta a indústria nacional usava entre 40 a 50 por cento de café robusta em seus produtos, um percentual que caiu para 10 a 15 por cento desde o final do ano passado, quando os preços dessa variedade atingiram recordes de cerca de 550 reais a saca.

Com isso, aumentou fortemente o uso de arábicas nos "blends", que ficaram --no caso do grão de menor qualidade-- atipicamente mais baratos que o robusta.

"Mudou o 'blend'? Mudou. Vai mudar de novo? Não, até que a gente tenha certeza de que a oferta é suficiente para abastecer a indústria local e a exportação. E a gente não tem expectativa de que isso ocorra, até pelos volumes menores que estão previstos", afirmou Herszkowicz, que considerou "lamentável" a decisão da noite de terça-feira que suspendeu as autorizações para importações.

Após pressão de parlamentares ligados aos cafeicultores, contrários à liberação da importação, o presidente Michel Temer ordenou a suspensão provisória das autorizações publicadas esta semana para a importação de café robusta do Vietnã pelo Brasil, determinando ainda que se encontre uma solução para o abastecimento.

Um menor uso de robusta pelo setor de torrado e moído poderia, por outro lado, beneficiar a indústria de café solúvel, que utiliza essa variedade em sua maioria e tem menos margem para trabalhar com arábica, pelas características do produto.

Além de ser o maior produtor e exportador de café verde, o Brasil é também o maior exportador do produto solúvel, setor que também demandou as inéditas importações.   Continuação...