ESPECIAL-Nova era do petróleo na Foz do Amazonas dispara alerta por ameaça a ecossistemas

sexta-feira, 12 de maio de 2017 11:06 BRT
 

Por Marta Nogueira

OIAPOQUE, Amapá (Reuters) - Sentada à mesa em sua pequena e bucólica ilha no rio Oiapoque, exatamente entre o Brasil e a Guiana Francesa, a moradora brasileira mais ao norte do país, Valéria Leal, reflete sobre a retomada da exploração de petróleo na região amazônica do Amapá.

Ela teme que o Estado, que abriga um dos maiores berçários de vida marinha e de floresta preservada do mundo, fique apenas com os riscos ambientais da atividade petrolífera, uma preocupação de muitas comunidades, como pescadores e indígenas.

Apesar da crescente oposição de ambientalistas, uma nova era de perfurações na Bacia da Foz do Amazonas, a 120 quilômetros da longínqua cidade de Oiapoque, está para começar neste ano.

Lá, um consórcio da francesa Total com a britânica BP e a Petrobras aposta realizar a próxima grande descoberta de petróleo em águas profundas do país. As companhias gastaram mais de 600 milhões de reais apenas na aquisição de cinco blocos exploratórios na área, de olho em reservas gigantes estimadas em 14 bilhões de barris in situ, que incluem possíveis jazidas adjacentes.

Somente a petroleira francesa, líder do consórcio, investiu em atividades na região outros 200 milhões de reais. Mas até agora praticamente nada chegou aos moradores, até porque o investimento exige equipamentos e infraestruturas não encontradas no Amapá, um dos Estados mais pobres do país e que em 2016 registrou a maior taxa de desemprego.

"Se fosse para o bem comum, seria bom... Nós aqui no extremo norte estamos completamente desassistidos... não sei quais as vantagens que virão, se tudo será feito fora daqui", afirmou Valéria, que mora na ilha com seu marido, há 27 anos, a cerca de 50 km da foz do rio Oiapoque.

A petroleiras planejam, por exemplo, instalar sua base marítima no Porto de Belém, no Pará, onde equipamentos como tubos de perfuração e brocas já estão armazenados, aguardando o início das perfurações.

"Se for para usar o Pará como base para eles, será igual quando os portugueses vieram para cá e levaram tudo sem nenhum benefício", disse o indígena Adair Jeanjaque, de 25 anos, da etnia Galibi, ao receber à Reuters em sua aldeia, às margens do Oiapoque, fonte de sustento de grande parte da população local.   Continuação...

 
Uma casa entre rios, ao lado da foz do rio Amazonas na costa do Estado do Amapá, perto da cidade de Macapá.  31/03/2017 REUTERS/Ricardo Moraes