Em aversão a risco, pecuarista só quer vender boi à vista à JBS

quarta-feira, 24 de maio de 2017 19:54 BRT
 

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - Pecuaristas de Mato Grosso, maior produtor de gado do Brasil, e de outros Estados do país querem vender boi apenas à vista ao frigorífico JBS, em um movimento de aversão a risco frente ao escândalo de corrupção envolvendo a cúpula da empresa que domina os abates bovinos no Estado, disse uma importante consultora do setor.

"O pessoal está avesso ao risco. Produtores não estão vendendo ao JBS, e o que vende está fazendo o máximo para vender à vista", disse a diretora da Agriffato, Lygia Pimentel.

A JBS, segundo relato da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), informou aos pecuaristas do Estado recentemente que buscaria fazer negócios a prazo, um movimento que, por outro lado, tem sido evitado pelos produtores de gado, gerando uma lentidão dos negócios.

A entidade está aproveitando o escândalo e o que foi causado pela operação da Polícia Federal Carne Fraca para cobrar intervenção do governo para incentivo à concorrência no Mato Grosso. As demandas incluem isenção do ICMS para comercialização de gado para outros Estados. A Acrimat afirma que a isenção daria ao produtor mato-grossense oportunidade de vender seus animais à vista, "direito que vem sendo violado por imposição das indústrias frigoríficas".

"Ouvi de cliente meu em Mato Grosso dizendo 'a prazo não vendo'", disse Lygia à Reuters. Uma alternativa oferecida pela JBS é pagar à vista, mas com um desconto de 5 por cento em relação ao valor de mercado, relatou a consultora.

"Descontando 5 por cento do valor, se o pecuarista fizer negócio à vista, é ruim para o setor, mas é o estouro de uma bolha...", acrescentou ela.

Enquanto isso, o diretor técnico da consultoria IEG FNP, José Vicente Ferraz, afirmou que a movimentação dos pecuaristas não ocorre apenas em Mato Grosso, "mas no Brasil inteiro. Existe resistência de se fazer negócio com a JBS, e consequentemente, a partir de momento que a JBS começa a ter seus estoques baixando, e escalas de abate diminuindo, a empresa vai começar a priorizar quem irá atender", disse Ferraz. Ele acrescentou que a companhia deverá priorizar a exportação.

Procurada, a JBS informou que "há três semanas padronizou todos os processos de compra de gado no Brasil, com pagamento no prazo de 30 dias, o que já acontecia em 97 por cento das praças onde atua".   Continuação...

 
Gado em Deciolândia, no Estado do Mato Grosso, Brasil
07/09/2011
REUTERS/Paulo Whitaker