Embate do Planalto com J&F pode ter desdobramentos no setor financeiro

terça-feira, 6 de junho de 2017 17:27 BRT
 

Por Aluísio Alves e Lisandra Paraguassu

SÃO PAULO (Reuters) - Após quatro anos acumulando perdas com EBX, Sete Brasil, Oi e Odebrecht, bancos brasileiros estavam saindo do ciclo de provisões multibilionárias para calotes de grandes conglomerados, mas o embate entre o Palácio do Planalto com a J&F pode estar prestes a mudar esse quadro.

Com os acordos de delação de executivos da J&F e de leniência da empresa, admitindo pagamento de propinas a políticos, o que levou a pedidos de renúncia do presidente Michel Temer, o governo federal mandou a Caixa Econômica Federal cortar linhas para o grupo, recusando-se a renovar linhas de crédito e dar novas.

A Caixa obedeceu de pronto e fez uma provisão extra para o balanço do segundo trimestre para perdas esperadas com empréstimos para o grupo, dono da JBS, da Alpargatas, do Banco Original e da Eldorado Celulose.

"Depois que veio a delação (de executivos da J&F e da JBS), a Caixa recebeu o recado (do governo) e logo fez a provisão", disse uma fonte familiarizada com o banco.

A J&F fechou na semana passada as bases de um acordo de leniência com o Ministério Público Federal pelo qual pagará multa recorde de 10,3 bilhões de reais por atos praticados por empresas controladas pela holding.

Um importante integrante do governo admitiu que a ordem à Caixa para cortar o crédito a J&F foi uma retaliação.

"É óbvio que se cria uma má vontade contra os caras, que se aproveitaram do país, tomaram juro subsidiado, e foram comemorar no exterior", disse a fonte de alto escalão do governo, também sob condição de anonimato.

A ordem do Palácio do Planalto foi direto para a Caixa, maior credora da J&F com cerca de 9,7 bilhões de reais, segundo a fonte familiarizada com o banco, e não passou pelo Ministério da Fazenda, ao qual o banco está subordinado. A equipe econômica tem preferido manter distância do assunto, por perceber que o Palácio do Planalto está agindo "com o fígado" no caso J&F, disse outra fonte no governo.   Continuação...