9 de Julho de 2015 / às 14:55 / em 2 anos

ENFOQUE-Alta de imposto sobre cosméticos começa a ser repassada aos preços com força em julho

SÃO PAULO (Reuters) - Segunda maior rede de salões de beleza do Rio de Janeiro, a Walter’s notou nos últimos meses uma forte queda na demanda por serviços, enquanto clientes que antes faziam escova nos cabelos ou manicure semanalmente passaram a fazê-los quinzenalmente ou até mesmo uma vez por mês.

A redução da procura se estendeu a serviços como pintura e tratamento para cabelos, maquiagem, entre outros.

“O cliente está saindo menos de casa, evitando comer fora e, para economizar, está fazendo menos escova e menos pé e mão”, disse Walter Filho, sócio da marca que tem 12 unidades no Estado.

O cenário para os salões de beleza pode ficar ainda mais difícil diante do aumento da carga tributária sobre o setor de cosméticos, que começará a sentir a partir deste mês impacto mais forte nos preços de produtos como perfumes e maquiagens.

Em maio, o governo federal passou a cobrar Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) também de atacadistas de cosméticos, além do já cobrado dos fabricantes, o que segundo a associação do setor Abihpec elevará os preços em até 12 por cento acima da inflação, que atingiu 8,89 por cento pelo IPCA em 12 meses até junho. A previsão da entidade é que as vendas do setor recuem 17 por cento em 2015.

Os produtos afetados pelas mudanças são alguns tipos de perfumes mais concentrados; maquiagens para boca, olhos e rosto; esmaltes; produtos de cuidados da pele; preparações para barbear e fixadores, alisantes e pinturas para cabelo, entre outros.

“Sem dúvida vai afetar as vendas”, disse o presidente da Associação Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria Cosméticos (Abihpec), João Carlos Basilio.

Segundo ele, outro efeito da alta dos tributos foi a antecipação de vendas da indústria para o atacado e varejo em maio e junho, o que deve impactar o desempenho nos próximos meses. “Os efeitos (da alta de impostos) no que diz respeito a aumento de preços (para lojistas e consumidores) estão sendo sentidos a partir de julho”, completou, salientando que em agosto o impacto será “total”.

Até abril, quando as medidas ainda não tinham entrado em vigor, as vendas do setor já apresentavam queda de 3 a 5 por cento na comparação com o mesmo período do ano passado, descontada a inflação, disse o presidente da Abihpec, que não informou a receita total.

Em 2014, o faturamento do setor foi de 101,7 bilhões de reais, crescimento de quase 11 por cento sobre o ano anterior.

De acordo com a Abihpec, o percentual de aumento de preços pelos fabricantes de cosméticos pode variar entre as empresas, com algumas companhias podendo optar por reduzir margem para não perder fatia de mercado.

Consultada sobre as mudanças na tributação, a Natura, uma das principais empresas de cosméticos do país, disse que reajustou os preços de algumas categorias de produtos em torno de 2,5 por cento em junho.

A empresa já tinha implementado aumento médio de 3,7 por cento em seus preços em fevereiro, e não informou se pretende realizar novos reajustes ainda este ano.

Em teleconferência com analistas na apresentação dos resultados do primeiro trimestre, o presidente da Natura, Roberto Lima, afirmou que a empresa seria cautelosa com aumentos de preços, para “não exagerar na mão”.

Segundo o Índice de Preços ao Produtor (IPP) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço de produtos de limpeza, cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal subiram 4,83 por cento no ano até maio.

POSIÇÃO FRAGILIZADA

Beneficiado nos últimos anos com o aumento da renda média da população e a ascensão da classe C, o Brasil consolidou sua posição de terceiro maior consumidor de cosméticos do mundo, atrás de Estados Unidos e China, de acordo com dados de 2014 da consultoria Euromonitor International.

O país responde por 9,4 por cento do uso mundial de cosméticos, sendo o maior consumidor de desodorantes, fragâncias e protetores solares, o segundo maior consumidor de produtos infantis, masculinos, de cabelo, banho e depilatórios.

Para Basilio, da Abihpec, essa posição pode ser fragilizada diante do cenário atual. Segundo ele, a tendência é que o brasileiro não deixe de comprar cosméticos, mas migre para produtos mais simples e mais baratos.

De fato, a distribuidora BIM, especializada em perfumes e maquiagens, tem buscado comprar mais produtos que não tiveram impacto do IPI, como perfumes de menor concentração, ou “eau de toilette”. Além do imposto maior, o gerente comercial da empresa Igor Bacchi disse que a alta do dólar ante o real vem afetando a companhia.

A BIM compra produtos de marcas estrangeiras como L‘Oreal e LVMH, maior grupo de luxo do mundo. De acordo com Bacchi, nos últimos meses a L‘Oreal elevou de 15 a 20 por cento os preços no Brasil. Procurada, a fabricante não quis dar entrevista. “Estamos repassando (aos lojistas) na mesma proporção”, disse Bacchi.

O salão Maria Haute Coiffure, de Ribeirão Preto (SP), decidiu absorver a maior parte do impacto, mas achou inevitável alguns ajustes na tabela de preços aos clientes a partir deste mês.

“Vamos assumir de 50 a 70 por cento do impacto e repassar o restante ao cliente. Repassar todo o aumento seria totalmente inviável”, disse Guilherme Restini, responsável pelas finanças do salão.

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