23 de Setembro de 2015 / às 22:04 / 2 anos atrás

ANÁLISE-Turbulências complicam intervenção do BC no câmbio; mercado vê ainda mais leilões de linha

SÃO PAULO (Reuters) - A intensa pressão no mercado de câmbio nas últimas semanas complicou a estratégia de intervenção do Banco Central, aumentando o custo e diminuindo a eficácia dos swaps cambiais, o que deve levar a autoridade monetária a continuar realizando com mais frequência leilões de linha, quando vende dólares com compromisso de recompra.

O dólar engatou a quinta marcha sobre a moeda brasileira e rompeu a marca histórica dos 4 reais no fechamento de terça-feira, diante da deterioração das contas públicas do Brasil --que provocou a perda do selo de bom pagador do país neste mês pela Standard & Poor‘s-- e da intensa crise política.

Nesta quarta-feira, a divisa norte-americana saltou 2,28 por cento, a 4,1461 reais na venda e renovando a máxima. No ano, o dólar já avançou quase 56 por cento ante o real.

Três operadores de bancos “dealers”, que negociam diretamente com o BC e que falaram sob condição de anonimato, afirmaram à Reuters que a tendência é que a autoridade monetária faça mais leilões de linha para balizar o mercado.

Até agora, o BC só divulgou os resultados dos três leilões de linha realizados de 31 de agosto a 10 de setembro. A autoridade monetária não vendeu dólares no primeiro leilão, fez venda parcial no segundo e colocou a oferta total no terceiro. Desde então, foram promovidos mais três operações desse tipo, duas delas nesta quarta.

A perspectiva de oferta maior de leilões de linha ganhou força com a disparada recente do cupom cambial, que equivale ao custo de financiamento em dólares. Segundo estrategistas, o objetivo do BC teria sido “acalmar” o cupom cambial e, inclusive, apontar que não há problemas de liquidez.

Dados do próprio BC mostram que o Brasil registrou entrada líquida de 11,659 bilhões dólares em 2015 até 18 de setembro. Só na semana passada, o ingresso foi de cerca de 900 milhões de dólares.

“Um programa (de swaps) que tem um custo significativo e um impacto menor não é mais um programa ótimo”, disse o estrategista-chefe para a América Latina do BNP Paribas, Gabriel Gersztein.

O contrato com vencimento em três meses chegou a ser negociado a cerca de 1 por cento em meados de julho, mas marcou 2,63 por cento no fechamento de terça-feira, perto do maior nível desde o fim de 2011 --quando o BC não mantinha estoque de swaps cambiais tradicionais, hoje em montante equivale a cerca de 100 bilhões de dólares.

Na prática, o BC tem tido que oferecer taxas mais altas ao rolar os swaps cambiais, operação equivalente a venda futura de dólares pela qual paga o cupom cambial mais a variação do câmbio e recebe de volta a taxa de juros.

    “Do ponto de vista daqueles que estão se protegendo via swaps cambiais, vão pedir um prêmio”, afirmou o estrategista do JP Morgan Diego Pereira. “Se o BC quiser continuar rolando 100 por cento dos vencimentos (de swaps), precisa oferecer um prêmio maior... ou pode escolher outras formas de intervenção que não os swaps cambiais”, acrescentou.

Segundo dados do BC, os swaps custaram à autoridade monetária 57 bilhões de reais até agora neste ano, embora o resultado seja compensado em parte pela valorização das reservas internacionais.

Desde abril passado, após passar quase um ano e meio intervindo diariamente com o objetivo de fornecer proteção cambial a investidores, o BC havia deixado de colocar no mercado novos swaps, optando por apenas rolar contratos já existentes. Nesta quarta, diante de nova disparada do dólar, a autoridade monetária anunciou oferta de novos swaps.

SEM USO DE RESERVAS

Estrategistas e agentes econômicos consultados pela Reuters não esperam que o BC entre vendendo dólares no mercado à vista, com medo de que o eventual uso das reservas internacionais assuste as agências de classificação de risco.

Contudo, se o Brasil começar a registrar fugas de capital, o que não tem acontecido, esse cenário pode mudar.

“Ao longo de todo esse movimento de depreciação cambial, vimos muito movimento de proteção via mercado futuro. Grande parte disso vem porque o Brasil tem reservas muito altas: eu me protejo e volto quando a poeira baixar. Por isso não vimos o dólar andando 5 por cento, 6 por cento em um único dia”, disse o sócio-gestor da Absolute Investimentos Roberto Campos.

“Agora, se em algum momento essa percepção mudar, todo esse dinheiro de longo prazo que hoje está represado vai sair do país. Aí sim podemos ver o BC entrando no mercado à vista”, acrescentou.

Enquanto isso não acontecer, as abundantes reservas cambiais do Brasil devem pairar sobre o mercado, limitando de alguma forma o mau humor. Analistas entendem que o colchão de cerca de 370 bilhões de dólares acumulado pelo país atrasou o rebaixamento do Brasil pela S&P e tem evitado que a Fitch e a Moody’s se precipitem para retirar o grau de investimento brasileiro.

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