Financiamento é maior desafio para novas nucleares no Brasil, diz Engie

segunda-feira, 5 de outubro de 2015 18:15 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - A elétrica francesa Engie (ex-GDF Suez), que já tem forte presença no Brasil, está preparada a apoiar o país na construção de novas usinas nucleares caso esse mercado seja aberto para investidores privados, mas considera que o financiamento será o principal desafio para viabilizar os empreendimentos, segundo um executivo da companhia.

O Brasil tem atualmente duas usinas nucleares em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. No mesmo local, está sendo construída uma terceira, mas que recentemente teve as obras paralisadas devido à falta de recursos para pagar fornecedores --um problema causado justamente por atrasos na liberação do financiamento para o empreendimento, orçado em 14,9 bilhões de reais.

O vice-presidente sênior de desenvolvimento de projetos nucleares da Engie, Yves Crommelynck, que falou à Reuters no intervalo de um evento do setor em São Paulo, lembrou que o país precisará rapidamente começar a dar os primeiros passos caso deseje prosseguir com os investimentos em energia nuclear, uma vez que essas usinas precisam de detalhados estudos antes de terem a construção iniciada.

"O período de desenvolvimento é relativamente longo e você tem que lidar com diversas questões, como a localização (da usina), a tecnologia a ser utilizada, o modelo regulatório... e talvez o mais importante, que é o financiamento. Mesmo se o Brasil estivesse em um momento econômico muito bom, financiar esses grandes empreendimentos é realmente desafiador", explicou o executivo à Reuters.

Segundo Crommelynck, a construção de novas nucleares brasileiras poderia contar com fundos de agências de apoio à exportação de países responsáveis pelo equipamento a ser utilizado --como a França, que possui fornecedoras como a Areva-- ou mesmo com parcerias internacionais, como no caso de usinas da Engie na Turquia, financiadas em parte por investidores japoneses.

O executivo também elogiou o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que poderia ser um financiador, e lembrou que o setor elétrico brasileiro costuma oferecer contratos seguros para os investidores, o que reduz riscos e, consequentemente, custos. 

"O que mais muda de um mercado para o outro é o custo de financiamento. O Brasil, por exemplo, tem contratos de longo prazo, então o custo de financiamento já é bem reduzido devido a esse sistema, que garante uma receita", explicou. 

A Engie atualmente busca novos mercados para investir na tecnologia nuclear --em parte devido à desistência de alguns países dessa forma de produção de energia, como é o caso da Alemanha, e parte por dificuldades regulatórias e de financiamento para o avanço da fonte na Europa, onde a companhia tem projetos em andamento no Reino Unido e na Turquia.

"Estamos olhando para os mercados internacionais em busca de novas oportunidades para o futuro", afirmou Crommelynck, que destacou que o Brasil praticamente concentra a atenção da companhia na América Latina. "No momento não estamos tão interessados na Argentina ou mesmo no Chile, que também estão pensando em energia nuclear."

(Por Luciano Costa)