19 de Novembro de 2015 / às 19:04 / 2 anos atrás

Desastre em Mariana abala trabalhador da Vale em ambiente de demissões e preços baixos

MARIANA, Minas Gerais (Reuters) - O desastre em Mariana (MG) ampliou preocupações e a sensação de instabilidade dos trabalhadores da Vale no importante polo minerário brasileiro, que já vivia envolto a queixas relacionadas à segurança e pressões para uma maior produtividade, enquanto a empresa reduz o número de funcionários para enfrentar os preços baixos do minério de ferro.

O rompimento da barragem da mineradora Samarco, joint venture da brasileira Vale com a anglo-australiana BHP Billiton, em 5 de novembro, deixou mortos e feridos ao derramar toneladas de lama em diversas cidades mineiras e capixabas, destruindo distritos inteiros e poluindo o importante Rio Doce.

Considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, o colapso da barragem da Samarco evidenciou falhas na atividade de mineração e preocupa trabalhadores, segundo o secretário do Sindicato Metabase Mariana, Ronilton Condessa.

"Agora acredito que 100 por cento dos trabalhadores da Vale não estão bem para trabalhar e a causa maior é essa, eles sabiam do risco, mas achavam que não ia acontecer", disse Condessa, referindo-se ao rompimento da barragem.

O sindicalista disse que os trabalhadores da maior produtora de minério de ferro do mundo estão abalados psicologicamente na região de Mariana, de onde a companhia extrai cerca de 10 por cento de sua produção.

De acordo com Condessa, eles não pensaram que algo com essa magnitude poderia acontecer.

"Aquela barragem da Samarco era segura? Se você me perguntasse um dia antes do rompimento, eu diria que sim... No nosso entendimento, a mineração vai e deve continuar, mas muita coisa precisa mudar", afirmou o secretário do sindicato Metabase.

A Vale tem quatro minas próprias no Complexo de Mariana, próximas das da Samarco. Juntas, as minas Alegria, Fábrica Nova, Fazendão e Timbopeba empregam cerca de 3 mil funcionários, disse o sindicalista.

O Sindicato Metabase Mariana representa os funcionários das três primeiras minas, enquanto os trabalhadores de Timbopeba são representados pelo Sindicato Metabase Inconfidentes.

Segundo a Vale, as quatro minas produziram 29,6 milhões de toneladas de minério nos nove primeiros meses de 2015, acima dos 29,3 milhões de toneladas extraídos no mesmo período de 2014.

A mineradora tem tentado tranquilizar os funcionários. Em resposta à Reuters, a mineradora afirmou em nota que tem informado os empregados constantemente sobre a resposta ao desastre por meio de comunicados internos.

Além disso, reiterou que vem realizando uma "verificação detalhada" das condições estruturais de 115 das barragens mais relevantes da empresa e que nenhuma alteração foi detectada.

Segundo a empresa, toda a legislação aplicável nas barragens é "observada e rigorosamente cumprida".

PRESSÃO PARA PRODUZIR MAIS

Ao lutar contra os prejuízos devido aos baixos preços do minério de ferro, a Vale tem batido recordes de produção, travando uma disputa por participação de mercado com as gigantes da mineração BHP Billiton e a australiana Rio Tinto, enquanto observa a falência de mineradoras de maior custo.

Os preços do minério de ferro no mercado à vista da China, principal consumidor global, recuaram novamente nesta quinta-feira, aproximando-se da menor cotação já registrada, puxados por uma queda nos preços do aço em meio aos crescentes temores de demanda fraca. Nessa conjuntura, o aumento da extração das grandes mineradoras também pesa no mercado.

Enquanto isso, na sua busca por se tornar cada vez mais competitiva, a empresa está reduzindo o quadro de funcionários e pressionando os trabalhadores por produtividade, segundo sindicalistas.

Condessa afirmou à Reuters que cerca de 400 empregados foram demitidos no Complexo de Mariana ao longo de 2015.

"As contratações só estão acontecendo em casos excepcionais", ressaltou o sindicalista, que tem recebido ao longo do ano queixas de forte pressão para o aumento da produção.

Sem citar números, a Vale confirmou que está diminuindo o quadro de funcionários enquanto busca se tornar mais competitiva, mas frisou que isso está sendo feito sem reduzir a ênfase na saúde e segurança.

"Com o objetivo de se adaptar ao atual cenário do setor, a empresa está aproveitando a rotatividade natural para aumentar sua produtividade. Dessa forma, cerca de um terço das vagas que tradicionalmente são abertas com a saída de empregados não está sendo reposta", afirmou a companhia em nota à Reuters.

O diretor do Sindicato Metabase Inconfidentes, Valerio Vieida, afirmou que as grandes empresas de mineração valorizam mais a produtividade do que a vida e o meio ambiente.

"A produção mineral tem que servir para o desenvolvimento da sociedade e não para o enriquecimento ainda maior de grandes empresas", afirmou Vieida.

Para o líder sindical, a forte pressão faz com que funcionários tenham que trabalhar com máquinas pesadas com problemas elétricos e mecânicos, sem ferramentas adequadas e sem tempo para realizar as tarefas necessárias.

"Os trabalhadores estão sobrecarregados, estão sendo muito exigidos para manter a produtividade", disse Vieida.

Entretanto, segundo a Vale, existe um forte trabalho sendo feito para aumentar a saúde e segurança das operações, o que reduziu "expressivamente" o número de lesões com e sem afastamento de 2010 a 2014, disse a nota sem citar números.

Na resposta enviada por e-mail, a companhia também ressaltou que um dos valores da Vale é "a vida em primeiro lugar".

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