17 de Fevereiro de 2016 / às 18:33 / 2 anos atrás

Câmbio e questões judiciais dificultam solução para Abengoa no país, dizem fontes

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - Uma solução para linhas de energia paralisadas no Brasil pela elétrica Abengoa após dificuldades financeiras ainda está distante e esbarra em questões jurídicas e em dívidas em dólar já contraídas nos projetos, afirmaram à Reuters três fontes com conhecimento direto do assunto.

A falta de uma saída que possibilite a continuidade de projetos bilionários sob responsabilidade da empresa, que entrou com pedido preliminar de recuperação judicial na Espanha em novembro, deve prejudicar a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que depende de alguns desses empreendimentos para levar sua importante oferta de energia à rede brasileira.

As obras da Abengoa estão paradas e sua retomada não deverá ser simples, uma vez que a espanhola deixou "centenas de milhões de reais" em pagamentos atrasados a fornecedores, disse uma fonte com conhecimento direto dos projetos, sob condição de anonimato.

"As dívidas com os fornecedores teriam que ser pagas (para haver uma solução)... grande parte dos equipamentos estava praticamente pronta. Não são equipamentos de prateleira, foram todos feitos sob encomenda", declarou.

A fonte ressaltou que parte dos contratos é em dólar, que disparou desde o ano passado, inflando o valor dos pagamentos que deveriam ser feitos a empresas como Siemens, ABB, SAE Towers, Alubar e Arteche.

Além disso, lembrou a fonte, a retomada das obras não é tarefa fácil.

"A mobilização tomaria tempo... trata-se de um mega projeto, muito complexo e demorado. Acessos muito difíceis e regiões com mata densa", acrescentou.

A Siemens e a ABB, que estão entre as credoras da Abengoa, informaram que não comentam o assunto. As outras empresas não comentaram imediatamente.

Representantes da Abengoa participaram de reunião com o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, na terça-feira, mas não falaram com a imprensa.

Uma fonte no governo federal disse após a reunião, sob a condição de anonimato, que a situação é acompanhada com cautela e exigirá ainda uma profunda análise jurídica da situação dos ativos da empresa para construir eventuais soluções.

O Ministério de Minas e Energia tem recebido empresas para sondar o interesse do mercado em assumir obras da Abengoa, que parou os projetos devido às dificuldades financeiras, mas nenhum acordo foi costurado até o momento.

A elétrica espanhola disse recentemente que procura uma solução "de mercado" para seus projetos. Em reuniões com o regulador do setor, a Aneel, a companhia disse que já busca compradores para os ativos.

Em nota enviada à Reuters nesta quarta-feira, a Abengoa disse que está em fase de elaboração de um plano para apresentar a parceiros, credores e colaboradores.

O objetivo, segundo a empresa, "é minimizar os impactos da suspensão de alguns dos projetos em construção e alcançar uma solução que seja adequada para todas as partes interessadas e afetadas pela situação atual".

Segundo uma fonte de empresa do setor, ao menos nas linhas que escoarão a energia de Belo Monte, a ideia dos espanhóis seria procurar parceiros, e não vender o negócio.

Uma decisão, no entanto, dificilmente seria possível antes de março, para quando é aguardada uma decisão da Justiça espanhola sobre o futuro da Abengoa.

"Se chegar em março e liquidar a empresa, ninguém vai querer ser parceiro. Se não liquidar, aí pode ser", disse a fonte.

Duas linhas sob responsabilidade da Abengoa levarão a energia de Belo Monte para o Nordeste --cada uma com cerca de 1,8 mil km, sendo uma agendada para entrar em operação no final deste ano e outra em 2017.

Segundo relatório da Aneel, a primeira delas tem avanço físico de 20 por cento, enquanto a segunda sequer iniciou obras.

DIFÍCIL PARA PARCEIROS

O diretor-geral da consultoria especializada Cesi, Paulo Esmeraldo, disse acreditar que será difícil encontrar investidores para assumir projetos da Abengoa em um momento em que os leilões de novas linhas, com taxa de retorno melhores, já não atraem interessados.

"Teria que rever (a taxa de retorno das linhas)... principalmente a questão da disparada do dólar, isso matou os investidores, não teria condição", afirmou.

Ele sugeriu que sejam realizados leilões emergenciais para encontrar interessados.

Para o presidente do centro de estudos em energia Acende Brasil, Claudio Sales, as dificuldades que Belo Monte poderá enfrentar para escoar a energia são um sinal de alerta para o segmento de transmissão.

"Seguramente, o setor de transmissão é a grande ameaça deste ano e dos anos imediatamente a seguir. Já houve um tempo em que a grande ameaça era falta de capacidade nova de geração... a pressão passou a ser por falta de oferta de transmissão", disse.

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