1 de Março de 2016 / às 21:45 / 2 anos atrás

Crise e redução do Fies pesam sobre matrículas do ensino superior no 1º semestre

RIO DE JANEIRO (Reuters) - A redução de vagas para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) somada à crise econômica levaram a uma queda nas matrículas do ensino superior privado do Brasil no primeiro semestre, o que tem impactado principalmente as instituições de ensino de menor porte.

Muitas delas optaram por adiar o início das aulas para a segunda quinzena de março com objetivo de estender ao máximo o prazo para inscrições e realizar novos vestibulares para completarem turmas desfalcadas, afirmaram representantes do setor.

“Até o momento percebemos que a captação de forma geral (para o primeiro semestre) está caindo cerca de 25 por cento” sobre o mesmo período ano passado, disse à Reuters o analista da Hoper, consultoria especializada no mercado de educação, Pedro Mena Gomes. “O ingressante está adiando de uma alguma forma ou procurando outras opções, cursos mais baratos, ensino a distância ou adiando um pouco sua matrícula por causa da situação econômica”, acrescentou.

No ano passado, as mudanças do Fies resultaram em evasão escolar, uma vez que as regras foram alteradas repentinamente e muitos alunos continuaram frequentando as aulas achando que conseguiriam o financiamento. Mas, sem o Fies, acabaram desistindo do curso. Já em 2016, com a situação definida sobre a quantidade de vagas, cerca de 250 mil para o primeiro semestre, o impacto está sendo sobre as matrículas, disse a diretora da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pacios.

“As (instituições de ensino) pequenas, que são exatamente as que estão no interior do país, estas sofreram muito. Além da evasão de alunos no ano passado, teve a inadimplência do governo”, disse Amábile, referindo-se aos pagamentos do Fies não realizados.

Os 12 maiores grupos de educação particular do Brasil têm cerca de 47 por cento dos cerca de 5 milhões de estudantes do ensino superior privado do Brasil, segundo a Hoper. De acordo com a consultoria, metade das duas mil instituições privadas de ensino superior no país tem cerca de apenas mil estudantes.

Com 1.200 alunos, a Sociedade Educacional Três de Maio (Setrem), localizada na cidade de mesmo nome, a 500 quilômetros de Porto Alegre (RS), teve uma redução de um terço nos candidatos ao vestibular e nas matrículas deste ano.

“A crise econômica interfere (negativamente) para nós. Todas as instituições da região estão oferecendo vestibulares complementares em praticamente 95 por cento dos cursos. As vagas estão ociosas”, disse Mauro Nüske, pesquisador institucional da Setrem.

A procura menor pelos vestibulares e a queda nas matrículas já causou demissão de professores. Em Minas Gerais, as instituições demitiram em média 6 por cento do corpo docente neste início de semestre, de acordo com o presidente do Sindicato das Escolas Particulares do estado (Sinep-MG), Emiro Barbini.

“A captação em todas as universidades e faculdades baixou muito... quando não formam turmas tem que haver demissão de professores”, disse.

No ano passado, instituições de maior porte como Estácio e Kroton prepararam suas opções de financiamento aos estudantes pouco tempo após as regras do Fies terem sido alteradas. No caso das instituições menores, isso está começando a ser implementado agora.

Na Faculdades Orígenes Lessa (Facol), em Lençóis Paulistas (SP), esta foi a forma de tentar amenizar a perda de 30 por cento nas matrículas neste semestre.

De acordo com o mantenedor Afonso Placca Filho, o aluno vai pagar um terço da mensalidade durante o curso, e um terço após a conclusão, sem taxas de juros. A parte restante será cobrada apenas em caso de inadimplência e a instituição assumirá o risco.

“A gente se preparou pelo fato de que temos estoque de alunos do Fies. Nós vamos conseguir fazer esta transição até chegarmos o momento que formar a primeira turma e teremos os alunos fora da instituição nos pagando e vamos recompor nossa planilha de rentabilidade”, disse Placca.

A instituição de mil alunos chegou a ter 80 por cento de sua base com estudantes do Fies, e hoje este número é de 15 por cento.

FUSÕES E AQUISIÇÕES

Apesar de pressionar o nível de matrículas, a situação desafiadora do mercado de educação tende a impulsionar as fusões e aquisições no setor, após um 2015 que não contou com o dinamismo de anos anteriores. Porém, “o que os grandes grupos estão dispostos a pagar não é mais o que era antes”, disse o analista da Hoper.

Barbini, do Sinep-MG, diz que escolas de porte médio, com entre 15 mil e 20 mil alunos, e indicadores elevados de qualidade são as mais assediadas por investidores, especialmente as da área de saúde, uma das prioridades do Fies e que possuem valor elevado de mensalidade média. Nas faculdades de medicina, o curso pode custar 7.500 reais por mês.

Entre as instituições que já foram procuradas por grandes empresas do setor está o Grupo Athenas Educacional, de acordo com o seu dono, Hildon de Lima Chaves. Ele recusou as propostas por querer levar adiante seu negócio.

A instituição tem aproximadamente 10 mil alunos nos Estados do Acre, Rondônia e Mato Grosso e abriu 22 cursos este ano - como odontologia, engenharia civil e de produção - e teve um aumento de 40 por cento nas matrículas neste semestre. Chaves também optou por oferecer seu próprio financiamento privado.

“Nós temos algumas situações localizadas, tem algumas faculdades que já estavam mal por problemas de gestão, e agora estão piores. Em Rondônia, o PIB cresceu no ano passado, a região do agronegócio é forte. Não chegamos a ter muitos problemas”, disse ele, que também é presidente do Sindicato de Ensino Particular do Estado de Rondônia (Sinepe-RO).

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