Usar reservas para abater dívida traz riscos e não ajuda a resolver crise, dizem especialistas

terça-feira, 15 de março de 2016 14:24 BRT
 

Por Camila Moreira e Patrícia Duarte

SÃO PAULO (Reuters) - Seria infrutífero usar as reservas internacionais para enfrentar a crise econômica no Brasil, como sinalizado pelo governo recentemente, segundo especialistas consultados pela Reuters, que apontam ainda que tal movimento acarretaria não apenas em aumento do descrédito no país como também teria consequências inflacionárias.

As reservas internacionais, hoje na casa de 370 bilhões de dólares, são consideradas um colchão de segurança em meio à rápida deterioração das contas públicas e mantêm o setor público brasileiro como credor líquido em moeda estrangeira.

"Se não tem pressão no mercado de câmbio, não faz sentido. Essa proposta não contribui para melhorar a credibilidade, ao contrário, aumentaria a incerteza e a insegurança dos agentes econômicos", afirmou o economista-chefe do Banco J.Safra e ex-secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall.

Na segunda-feira, o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, afirmou que o governo da presidente Dilma Rousseff avalia usar as reservas internacionais para abater a dívida pública federal, negando a ideia de utilização para investimentos. O PT, partido da presidente, defende a ideia de sacar parte das reservas para estimular a atividade.

As reservas internacionais foram fortemente acumuladas pelo Banco Central, seu gestor, ao longo do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e são apontadas como um dos poucos indicadores econômicos positivos do país. Elas são usadas para controlar a liquidez no mercado de câmbio.

A avaliação é de que o Brasil ficaria vulnerável no caso de fuga de capitais ou de um ataque especulativo, algo não completamente descartado neste momento de intensa crise política e após o país ter perdido o selo de bom pagador pelas três principais agências de classificação de risco.

"Vai aumentar a desconfiança em relação ao Brasil. A consequência é que sobe juros, sobe dólar e podemos de novo chegar na hiperinflação da década de 1980", disse o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas, sobre o uso das reservas para abatimento da dívida.

Para ele, sem uma trajetória sustentável de dívida, que seria alcançada através do ajuste fiscal, usar as reservas para diminuir a dívida bruta não passaria de "queimar dólares". Hoje, a dívida bruta do país está em 67 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) e avaliações indicam que ela pode ir a 80 por cento nos próximos anos.   Continuação...