22 de Março de 2016 / às 18:07 / um ano atrás

Baixas da Petrobras incluem revisão de produtividade; mercado teme impacto na produção

Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro. 28/01/2016Sergio Moraes/Files

RIO DE JANEIRO (Reuters) - A expressiva baixa contábil realizada pela Petrobras em campos de petróleo em 2015 não teve apenas a contribuição dos baixos preços da commodity, mas também da revisão de expectativas de produtividade de projetos, trazendo desconfiança de analistas de mercado sobre as projeções futuras de produção.

A diretora de Exploração & Produção da petroleira, Solange Guedes, entretanto, negou nesta terça-feira postergação de prazos e frisou que as expectativas de produção do plano de negócios 2015-2019 foram traçadas em cenários realistas.

"Aquele plano de negócios (2015-2019) já foi feito com a nossa visão mais realista, das projeções e das entregas desses ativos (de exploração e produção). O que nós estamos apurando agora é uma questão contábil, relacionada a testes de imparidade", afirmou Solange, em teleconferência com investidores e analistas para comentar os resultados do ano passado, divulgados na véspera.

Em 2015, o prejuízo da companhia foi de 34,836 bilhões de reais, ante prejuízo de 21,587 bilhões de reais em 2014. A perda líquida foi ocasionada principalmente por "impairment" de ativos e de investimentos relacionados ao declínio dos preços do petróleo.

A Petrobras teve prejuízo líquido recorde de 36,938 bilhões de reais no quarto trimestre, diante de baixas contábeis de 47,7 bilhões de reais. Somente as baixas em campos de produção de óleo e gás no Brasil somaram 33,7 bilhões de reais.

Diante do grande impairment, a corretora Brasil Plural ressaltou que a pergunta agora é se a Petrobras optou por um valor "absurdamente alto" porque deve-se esperar algum impacto futuro na produção, e também questionou se a produção do pré-sal e de outros campos offshore será viável se o preço de petróleo continuar pressionado.

A diretora evitou dar números de preço de equilíbrio para os projetos do pré-sal e reiterou que a empresa iniciou neste ano uma nova rodada de renegociação de contratos.

Já o Credit Suisse destacou que o prejuízo foi uma surpresa negativa e que o impairment maior do que o esperado pode implicar expectativas de preço menores do petróleo e, eventualmente, se traduzir em cortes de investimentos (Capex) e menor produção no próximo plano de negócios.

Papa-Terra, localizado na bacia de Campos, foi o campo que mais contribuiu para a baixa contábil na área de E&P, com um total de 8,7 bilhões de reais.

Segundo Solange, além de ser impactado pelas menores projeções futuras de preços do petróleo, o projeto apresentou desempenho de poços inferior ao esperado e será redesenhado até meados de outubro deste ano.

"Não haverá nenhum tipo de mudanças em relação às projeções por causa dos fatos aqui elencados (relacionados a Papa-Terra), estamos trabalhando fortemente, existe uma expectativa real, inclusive, de que a gente possa alcançar um cenário mais otimista do que aquele que a gente planejou", afirmou Guedes.

O campo de Papa Terra é operado pela Petrobras, com 62,5 por cento, em parceria com a norte-americana Chevron, que detém os demais 37,5 por cento.

A diretora também explicou que uma baixa contábil de 1,2 bilhão de reais referente ao campo de Lapa, no pré-sal da Bacia de Santos, foi devido a uma mudança de expectativas em relação à área após a realização de um reprocessamento sísmico. Segundo ela, a baixa, neste caso, não teve influência de preços do petróleo.

O consórcio de Lapa é operado pela Petrobras, com 45 por cento, em parceria com as empresas BG (que foi comprada pela Shell), com 30 por cento, e Repsol Sinopec Brasil, com 25 por cento.

Outros ativos de E&P também sofreram baixas contábeis. Dentre eles, o Polo Centro-Sul, com baixa de 4,6 bilhões de reais, Polo Uruguá, de 3,8 bilhões de reais, e o campo de Espadarte, de 2,3 bilhões de reais.

Em contrapartida, Solange destacou um resultado "absolutamente magnífico" na área de Libra, no pré-sal da Bacia de Santos, onde já concluiu alguns poços, e resultados fantásticos na área de Búzios, na cessão onerosa, também em Santos, onde a empresa está realizando um teste de produção.

Às 15h03, as ações da Petrobras operavam sem direção comum, com as ordinárias apresentando alta de 1,8 por cento, e as preferenciais queda de 0,2 por cento, afastando-se das mínimas verificadas nos primeiros negócios, quando caíram ao redor de 4 por cento cada.

SOLUÇÕES

Sobre a entrega de novas plataformas de produção, o diretor de Engenharia, Tecnologia e Materiais da Petrobras, Roberto Moro, destacou que foram solucionados problemas enfrentados em contratos que envolviam dez plataformas próprias da empresa previstas para entrar em operação no pré-sal até 2019, sendo quatro delas na área da cessão onerosa.

Segundo ele, no ano passado, havia problemas estruturais em sete dos 11 contratos principais necessários para a construção das unidades, sendo que um deles precisou ser rescindido. No entanto, o executivo frisou que o contrato rescindido já foi recontratado e os demais seis foram renegociados.

"Aumentamos bastante a confiabilidade das nossas entregas e não prospectamos, pelo ponto de vista dos contratos, postergação", afirmou Moro.

CENÁRIO DE DESAFIOS

O diretor da Área Financeira e de Relacionamento com Investidores da Petrobras, Ivan Monteiro, ressaltou que as baixas contábeis tiveram forte impacto da redução das expectativas da empresa para o preço do Brent no longo prazo.

"A companhia vai ter que se reinventar, a companhia vai ter que ter os seus custos adaptados a essa nova realidade, portanto será um processo contínuo em que nós vamos identificar toda e qualquer oportunidade de redução para sermos competitivos em um ambiente de Brent mais baixo", disse Monteiro.

Ele também reiterou que a Petrobras apenas pagará dividendos se tiver resultados positivos, ao responder pergunta de analista sobre a política a ser adotada caso a empresa venha a ter perdas no futuro.

Neste caso, a Brasil Plural alertou para o fato de que 2015 se trata do segundo ano sem dividendo para as ações preferenciais e que, segundo a Lei das Sociedades Anônimas, a partir do terceiro ano sem dividendo a ação preferencial passa a ter direito a voto. "Essa lei entra em conflito com outra que determina que o governo não pode perder o controle da estatal."

Com reportagem adicional de Paula Arend Laier

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