Na esteira da Lava Jato, relação entre empresas e auditores deve azedar em 2017

sexta-feira, 8 de abril de 2016 11:41 BRT
 

Por Aluísio Alves

SÃO PAULO (Reuters) - As relações entre grandes empresas listadas e auditores externos no Brasil devem azedar, à medida que estes se preparam para seguir a partir de 2017 a prática contábil global de emitir análises mais detalhadas sobre balanços, no momento em que os desdobramentos da operação Lava Jato têm deixado investidores e analistas desconfiados sobre a transparência dos dados corporativos.

Em vez dos tradicionais, breves e protocolares comentários que em geral precedem a recomendação de aprovar um balanço financeiro com ou sem ressalvas, auditores emitirão documentos mais extensos. Os relatórios podem incluir opiniões sobre ágio de negócios adquiridos e até sobre fragilidades de controles internos e a aderência a exigências regulatórias de prevenção contra lavagem de dinheiro, por exemplo.

"Está havendo uma resistência muito grande de empresas auditadas", disse Silvio Takahashi, sócio da EY no Brasil, que começou a fazer um piloto com algumas companhias no ano passado.

E a temperatura dessa relação tende a ser mais quente em particular nos casos de grupos citados na Lava Jato, como companhias da cadeia de óleo e gás e grandes empreiteiras, dizem especialistas.

"Empresas em situação financeira ou operacional frágil são as que poderão ficar mais desconfortáveis em ver novas informações suas se tornarem de conhecimento público", disse o sócio de auditoria da Deloitte Wanderley Olivetti.

A mudança já estava prevista num calendário de aderência a padrões emitidos pelo Comitê Internacional de Padrões de Auditoria (Iaasb, na sigla em inglês), mas o momento da entrada em vigor se dará num ambiente particularmente conflituoso, com as empresas enfrentando um nível de escrutínio para o qual não estão acostumadas.

"Sem dúvida, isso tornará mais difícil a relação entre empresa e auditoria", disse à Reuters o coordenador do Comitê Administrador da Revisão Externa de Qualidade do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Rogério Rokembach. "Ninguém quer ver suas fraquezas exibidas para o público."

Diante da dimensão dos fatos revelados pela Lava Jato, a expectativa de agentes do mercado é que, além do relatório de auditoria mais aprofundado, as próprias companhias e as instituições responsáveis por averiguá-las se vejam na situação de tomarem medidas para tentarem recuperar credibilidade.   Continuação...