ESPECIAL-Crise aperrea, mas não muda planos de expansão do ensino superior privado no Nordeste

sexta-feira, 29 de abril de 2016 15:48 BRT
 

Por Juliana Schincariol

RECIFE/CARUARU, Pernambuco (Reuters) - Cerca de 50 ônibus, vans e carros fretados ou oferecidos por prefeituras chegam diariamente no início da noite a Caruaru, segunda maior cidade de Pernambuco, levando estudantes que buscam na formação universitária uma chance de melhor colocação no mercado de trabalho, ainda que as crises econômica e política gerem dúvidas sobre o futuro.

Com 350 mil habitantes e a 130 quilômetros da capital Recife, Caruaru é um exemplo de como políticas generosas de financiamento público para a educação ampliaram os investimentos privados no setor, levando para a cidade laboratórios, bibliotecas e infraestrutura de primeira linha para os estudantes.

Mas os efeitos da restrição orçamentária que têm constrangido o lema "Pátria Educadora", criado para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, já começam a ser percebidos.

A cidade, um polo regional que reúne cerca de 70 municípios do agreste de Pernambuco, tinha até o início dos anos 2000 apenas duas faculdades particulares locais, com poucas opções de cursos. De lá para cá, a oferta teve forte crescimento com a chegada de dois grandes grupos privados de ensino, a norte-americana Devry e a Ser Educacional, e o número de estudantes subiu de 1 mil para 15 mil até o final do ano passado.

Entre estes alunos, o motorista da prefeitura de Poção (PE) João Paulo Alves, 25 anos, conduz diariamente cerca de 40 estudantes até Caruaru em uma viagem que dura três horas. Ele próprio cursa o nono período de arquitetura como bolsista integral do Programa Universidade para Todos (Prouni).

Como o mercado de trabalho da região é restrito, Alves já pensa em fazer uma nova faculdade, de engenharia, mas vê dificuldades para isso após os cortes no Fies, fundo do governo federal para financiamento de estudantes no ensino superior, que sofreu cortes de 80 por cento a partir do ano passado em relação ao pico em 2014.

"Quando eu entrei estava bem fácil. Hoje eu percebo que tem muita complicação com Fies, Prouni, não estão dando 100 por cento como antigamente", disse.

No ápice em 2014, o Fies chegou a oferecer 732 mil financiamentos apenas para novos estudantes, sempre com crédito integral. O valor desembolsado naquele ano para 1,9 milhão de alunos chegou a 13,75 bilhões de reais, considerando contratos antigos e novos. Mas desde o corte orçamentário em 2015 e trocas sucessivas de ministros da Educação, a expectativa é que o programa mantenha o nível de oferta do ano passado, de cerca de 300 mil vagas novas ao ano.   Continuação...

 
Estudantes em centro universitário em Caruaru, Pernambuco