BC mostra satisfação com desinflação e diz que política monetária não depende de um só fator

terça-feira, 6 de setembro de 2016 11:00 BRT
 

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - Todos os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mostraram satisfação com o progresso nas perspectivas de desinflação e deixaram claro que a decisão sobre a redução nos juros básicos não levará em conta um único fator, pavimentando o caminho para corte na Selic já no próximo mês.

"Não há fator que seja determinante por si só para as decisões de política monetária. Em outras palavras, nenhum dos fatores constitui condição necessária ou suficiente para uma flexibilização das condições monetárias", informou o BC em ata do Copom publicada nesta terça-feira.

Na semana passada, o BC manteve a Selic em 14,25 por cento ao ano --mesmo patamar há mais de um ano-- e abandonou a expressão de que não havia espaço para corte de juros, usada nos últimos meses, levando boa parte do mercado a apostar em possível redução na taxa mais cedo que o anteriormente esperado, em outubro. Até então, as perspectivas gerais eram de que o movimento de corte viria somente em novembro, último encontro do Copom do ano.

Para diminuir os juros, o BC repetiu que deve ver avanços em relação à persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação. Também ponderou que componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica devem indicar desinflação em velocidade adequada, e que a incerteza sobre os ajustes necessários na economia precisa diminuir, mencionando diretamente as medidas fiscais.

Mas ressaltou que todos seus membros mostraram "satisfação com o progresso nas perspectivas de desinflação da economia brasileira nos horizontes relevantes para a política monetária", segundo a ata, mas acrescentando que havia preocupações com as expectativas de inflação para 2017 tanto na pesquisa Focus quanto cenário de mercado, "ambas acima da meta de 4,5 por cento".

"Hoje (ele) está dizendo que essas condições dependem de um julgamento, que não é nada mecânico, ou uma condição necessária, suficiente para permitir queda de juros", afirmou o economista-chefe da corretora Votorantim, Roberto Padovani, que prevê corte de 0,5 ponto percentual na Selic em outubro.

Na ata, o BC ponderou que a flexibilização monetária dependerá de fatores que permitam maior confiança no alcance das metas para a inflação, em particular o alvo de 4,5 por cento em 2017. No Focus, que ouve semanalmente uma centena de especialistas, a expectativa para o IPCA em 2017 é de 5,12 por cento e, para 2016, de 7,34 por cento.

Apesar de as projeções do BC na ata mostrarem inflação mais alta em 2016 tanto no cenário de mercado quanto no de referência, de 7,3 por cento, as contas para a inflação em 2017 permaneceram ao redor da meta de 4,5 por cento no cenário de referência, tendo caído para 5,1 por cento no cenário de mercado, contra 5,3 por cento antes.

Depois de já ter chamado atenção na semana passada para o fato de índices de preços no atacado indicarem possível arrefecimento do choque de preços de alimentos, com eventual efeito favorável sobre o IPCA, o BC apontou na ata que "é possível que ocorra uma reversão desses preços ao consumidor, diminuindo riscos de efeitos secundários desse choque sobre outros preços na economia".

"O que me chamou a atenção foi a suavização das condições que (o BC) impôs para iniciar o corte da Selic. Está vendo aquilo não como resolvido, mas pelo menos com um bom encaminhamento", afirmou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, que espera corte de 0,25 ponto na Selic no mês que vem e outro de 0,5 ponto em novembro.

 
Edifício do Banco Central em Brasília. 23/09/2015 REUTERS/Ueslei Marcelino