15 de Julho de 2013 / às 16:40 / 4 anos atrás

Têxteis e calçadistas serão as mais pressionadas do varejo no 2ºsem

SÃO PAULO (Reuters) - A combinação de inflação alta, juros e dólar em elevação desenha um cenário desafiador para o varejo brasileiro na segunda metade de 2013, com maior impacto para empresas de roupas e calçados, segundo especialistas do setor.

A expectativa é que as variáveis continuem pressionando a disposição do brasileiro em consumir no segundo semestre, afirmou o presidente do conselho do Programa de Administração do Varejo (Provar), Claudio Felisoni, reforçando um viés mais negativo para as companhias que vendem artigos não-essenciais, que podem ter a compra facilmente adiada.

O índice de consumidores que pretendem ir às compras entre julho e setembro caiu ao menor nível desde 2002 na capital paulista, indicou levantamento realizado pelo Provar, da Fundação Instituto de Administração (FIA), em parceria com a consultoria Felisoni.

Ainda desconhecido, o impacto das manifestações no país também tende a afetar de modo mais intenso a comercialização dos artigos não-correntes, que são mais dependentes das vendas por impulso. O que se perdeu nas últimas semanas pode não ser compensado com a normalização das atividades.

Além disso, a manutenção do dólar mais alto deve seguir pressionando empresas ligadas a têxteis, afirmou o HSBC, em relatório. O impacto para Lojas Renner, Cia. Hering e Marisa será moderado, segundo os analistas, uma vez que elas importam de 25 a 28 por cento das mercadorias, com o agravante da falta de uso do hedge no caso dessas duas últimas.

Para a Arezzo, por outro lado, o HSBC vê um risco cambial insignificante pelo fato da empresa não ter importações representativas.

"Junho e julho deverão ser meses fracos e que vão levar para baixo a projeção anual de crescimento para vendas de calçados e roupas", afirmou o sócio-diretor do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI), Marcelo Villin Prado.

Ainda que a estimativa oficial da entidade mantenha-se na casa de 5 por cento para o avanço das vendas no ano, Prado admite que o número deverá ser revisto para 3 a 4 por cento.

A CGD Securities compartilha a visão de um horizonte menos róseo. "Acreditamos que as companhias varejistas deverão apresentar uma desaceleração no crescimento em 2013, impactados pelo novo cenário macroeconômico, com reversão de expectativas de manutenção da taxa de juros reduzida e maior crescimento do PIB, elevando as incertezas sobre o poder de compra da população", disse a corretora em relatório a clientes.

Em encontro com analistas no início deste mês, a Renner admitiu que o ambiente é desafiador. Mas segundo análise do BTG Pactual sobre o evento, a empresa afirmou ter um plano de expansão imune a ciclos econômicos, não planejando pisar no freio. O plano de investimento e abertura de novas lojas não foi alterado pela companhia.

Procuradas, as varejistas têxteis citadas na matéria não comentaram perspectivas de crescimento. A Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) também não se pronunciou a respeito.

EXPECTATIVAS FRUSTRADAS

Mesmo antes dos reveses mais recentes, o setor já vinha enfrentando dificuldades. Além do inverno mais brando que o esperado, as vendas do Dia das Mães e do Dia dos Namorados, duas das datas mais importantes para o setor, também não agradaram.

As vendas de calçados, roupas e tecidos, junto com artigos de farmácia e perfumaria, tiveram em maio a maior queda do varejo ante abril, recuando 2,6 por cento.

O HSBC afirmou em análise sobre o setor que Lojas Marisa, Renner e Riachuelo reconheceram resultados piores que os esperados para a data.

Em relatório desta semana, o Morgan Stanley frisou que a Cia. Hering, que tradicionalmente abre a campanha promocional "Rapa" depois de promover descontos gradativos nas peças, desta vez partiu para o "Rapa" sem escalas, num cenário em que as competidoras começaram mais cedo a ofertar descontos de até 60 por cento.

Empresas ligadas a bens essenciais, basicamente supermercados, foram menos impactadas. Elas puxaram o desempenho do varejo em maio, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), superando expectativas de resultado negativo pelo mercado na comparação com o mês anterior.

Para o Pão de Açúcar, que tem cerca de 3 por cento dos produtos alimentícios, o HSBC prevê impacto pequeno da alta recente do dólar, acrescentando que empresa deve conseguir repassar o aumento nos custos aos clientes.

Por Marcela Ayres

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