15 de Agosto de 2013 / às 17:13 / 4 anos atrás

ANÁLISE-Empresas brasileiras compensam economia fraca com corte de custos

Por Alberto Alerigi Jr.

SÃO PAULO (Reuters)- Grandes companhias brasileiras conseguiram resultados acima do esperado pelo mercado no segundo trimestre, mesmo diante de um cenário mais desafiador para a economia.

Mas o desempenho, calcado em ganhos de eficiência, ao invés de indicar uma perspectiva de melhora econômica, mostra que o setor privado do país está se preparando para tempos difíceis à frente.

Empresas dos setores financeiro, de produção de aço, construção e de bens de consumo responderam à desaceleração da economia dos últimos meses com corte de custos e redução de investimentos e têm se mostrado reticentes sobre o desempenho da futuro da economia brasileira.

Projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) do país este ano continuam caindo e, nesta semana, os economistas consultados pelo Banco Central estimaram crescimento de 2,21 por cento em 2013, ante estimativas acima de 3 por cento no início do ano. A perspectiva para 2014 também foi reduzida, para 2,5 por cento.

Enquanto isso, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado espécie de sinalizador do PIB subiu menos que o esperado em junho, segundo dados da autoridade monetária divulgados nesta quinta-feira.

"Se consultar qualquer setor brasileiro, vão dizer que há uma reacomodação dos negócios", disse o superintendente da CGD Securities, Raffi Dokuzian.

"O que mais me preocupa como investidor é o mercado interno. O endividamento das famílias está muito grande, a margem das empresas tem caído muito; tem empresa ficando no mercado mais porque acredita que 2014 vai ser melhor, uma vez que 2013 já foi", avaliou. "Não sei se o pior já passou."

Neste cenário, os maiores bancos privados do país -- Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil -- divulgaram resultados trimestrais que tiveram ajuda de cortes de despesas. Os ajustes envolveram a demissão de quase 10 mil trabalhadores, num cenário em que o governo federal tem pressionado os estatais Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal a emprestarem mais e a juros menores.

Itaú e Bradesco cortaram as estimativas de crescimento do crédito no país. O Banco do Brasil reduziu sua previsão de aumento nos empréstimos para pessoas físicas de 18 a 22 por cento para 16 a 20 por cento e afirmou que já atingiu o limite do movimento de redução de juros.

No setor de aço, Companhia Siderúrgica Nacional teve resultado melhor que o esperado no segundo trimestre, mas reduziu em 600 milhões de reais a estimativa de investimentos em 2013, para 3 bilhões de reais, mesmo nível de 2012.

O Instituto Aço Brasil (IABr), que reúne as grandes siderúrgicas do país, deve cortar na próxima semana as previsões para o setor em 2013. A entidade estimava no início do ano alta de 5,8 por cento na produção de aço bruto, mas o primeiro semestre terminou com queda de produção de 2,2 por cento, com importações tombando 15 por cento por um câmbio mais desfavorável, mas também por demanda interna mais fraca.

Em outra frente, a entidade que reúne os fabricantes de máquinas e equipamentos, Abimaq, revisou sua expectativa para o faturamento do setor neste ano de alta para queda de 8 por cento .

Complementando o cenário desfavorável, a associação de montadoras de veículos, Anfavea, pode anunciar em setembro corte na previsão de alta nas vendas de carros novos no mercado interno, apesar de expectativa para a produção indicar revisão para cima, por causa de exportações melhores.

JOGANDO A TOALHA

"Não esperamos mais que a recuperação da economia do Brasil ocorra em algum momento em breve, principalmente porque esperamos que atritos políticos tornarão reformas muito necessárias improváveis de ocorrer até após as eleições de 2014", afirmou Andre Loes, economista-chefe do HSBC para a América Latina.

Em relatório ao mercado intitulado "Jogando a toalha sobre a recuperação", Loes listou como fatores para a previsão de um crescimento menor a retração dos consumidores, menor confiança dos empresários, desaceleração do mercado de trabalho, inflação persistente e riscos políticos que podem levar a um aumento dos gastos do governo. O HSBC cortou suas expectativas de crescimento do PIB brasileiro de 2,4 para 1,9 por cento em 2013 e de 3 para 2,2 por cento em 2014.

Entre as construtoras, um dos setores incentivados pelo governo federal por meio do Programa Minha Casa, Minha Vida, o cenário ainda é de tentar reverter grandes prejuízos incorridos com a construção desenfreada de empreendimentos voltados à população de renda mais baixa nos últimos dois anos.

Gafisa e PDG, por exemplo, fecharam o segundo trimestre com prejuízos, mas informaram cancelamentos de projetos que devem ajudar a reduzir custos de construção e a melhorar as finanças das companhias.

Já a maior fabricante brasileira de bens de consumo não duráveis, a Hypermarcas, afirmou no início do mês que viu uma melhora na demanda dos consumidores em julho, mas isso ocorreu após as grandes manifestações nas principais cidades do país em junho, que atingiram as vendas no varejo.

A companhia teve lucro de 19 milhões de reais no segundo trimestre, acima do esperado pelo mercado, depois de uma forte revisão de seus negócios no ano passado.

No varejo, a Lojas Renner divulgou na véspera resultados perto do esperado pelo mercado e alertou que o segundo semestre tende a ser "tão desafiador quanto o primeiro".

SEM APOIO

No setor aéreo, a Gol teve resultado de segundo trimestre melhor do que previa o mercado, reduzindo o prejuízo em quase 40 por cento , valendo-se de menor oferta de voos e aumento dos preços de tarifas, para compensar o crescimento menor da demanda e o aumento de custos com insumos como combustível.

Para a economista e sócia da Tendências Consultoria Alessandra Ribeiro, as empresas precisarão continuar focando em melhoria de processos e redução de custos, pois a economia não deverá servir de apoio pelo menos até 2015.

"A economia não vai ajudar muito no segundo semestre, inclusive, nem em 2014", afirmou ela, que prevê crescimento de 2 por cento no próximo ano, mesmo com as concessões de infraestrutura.

"Claramente temos um ambiente de maiores incertezas, seja pelo cenário internacional, mas também com relação à qualidade da política fiscal do governo e ao cenário eleitoral do ano que vem", disse a analista. "A desconfiança é mortal para o investimento e a percepção é que vai ter de haver um ajuste na economia em 2015."

Reportagem adicional de Roberta Vilas Boas, Natalia Gómez e Juliana Schincariol

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