5 de Setembro de 2013 / às 13:58 / 4 anos atrás

ANÁLISE-Indústria brasileira ainda não sente efeito positivo do câmbio

Alberto Alerigi Jr.

SÃO PAULO, 5 Set (Reuters) - A desvalorização do real ante o dólar dos últimos meses está sendo comemorada com cautela pelo empresariado brasileiro que disputa mercado no Brasil e no exterior, e indústrias de vários setores se mostram reticentes em alterar suas estratégias para aproveitar o movimento cambial.

Empresários e executivos de setores que vão de brinquedos a veículos afirmam que os efeitos da desvalorização cambial devem se tornar positivos no médio a longo prazos, mas por ora estão focados em mitigar a alta dos custos de insumos importados por meio do repasse para os preços ou redução de margens.

A situação tem causado atrasos na definição de investimentos para os próximos anos e no fechamento de encomendas com fornecedores, contribuindo para desacelerar a economia neste final de ano e início do próximo.

Além disso, o desejado ganho de competitividade que um real mais fraco pode dar aos produtos brasileiros no exterior em parte está sendo anulado pela desvalorização das moedas de outros países emergentes em relação ao dólar.

A moeda norte-americana, que até abril era cotada na casa dos 2 reais, avançou nos últimos meses para cerca de 2,35 reais, patamar que deve ser mantido até o fim do ano, segundo pesquisa Focus do Banco Central com economistas.

"Essa movimentação muito brusca causa num primeiro momento clima de incerteza em nós e nos nossos clientes no exterior, onde estão enfrentando variações de 10 a 12 por cento (de suas moedas locais contra o dólar) nos últimos três a quatro meses", disse Ricardo Portolan, gerente de operações comerciais para o mercado externo da fabricante de ônibus Marcopolo, uma das maiores exportadoras do Brasil.

Segundo ele, a Marcopolo tem tentado buscar mais negócios em mercados cujas moedas não sofreram desvalorização acentuada nos últimos meses, mas esses países estão mais concentrados no Oriente Médio e África, regiões que enfrentam tensões geopolíticas exacerbadas pela crise no Egito e na Síria.

"Índia, Turquia e África do Sul tiveram variações do dólar praticamente na mesma proporção do Brasil", disse Portolan. "Alguns clientes comentaram que estão preferindo aguardar um pouco antes de fechar uma compra. Não chega a ser significativo agora, mas está ocorrendo", acrescentou.

Desde o início de maio, o dólar subiu cerca de 25 por cento em relação a rúpia da Índia, 14 por cento ante o rande da África do Sul e a lira da Turquia, e cerca de 18 por cento ante o real.

As exportações da Marcopolo caíram 14 por cento no segundo trimestre sobre um ano antes, após alta de 40 por cento nos três primeiros meses do ano.

Na outra ponta da indústria de veículos, a Ford afirma que o momento é de expectativa em torno do patamar em que a moeda vai se estabilizar, segundo o vice-presidente de assuntos corporativos da montadora para América do Sul, Rogélio Golfarb.

Apesar da alta de 25 por cento nas exportações de veículos de janeiro a julho pela indústria brasileira, o setor afirma que o desempenho foi puxado mais pela melhora dos mercados compradores do Brasil, como os Estados Unidos, do que pela desvalorização do câmbio local.

"Não vamos tomar decisões relativas a câmbio agora. O momento é de espera", disse Golfarb. "A tendência é o dólar se valorizar globalmante, o que trará impactos ao Brasil", disse o executivo.

Em serviços, a situação é semelhante, com reavaliação de contratos diante do efeito inflacionário sobre insumos importados selecionados para projetos de engenharia, por exemplo.

Segundo o vice-presidente de negócios internacionais do grupo Camargo Corrêa, André Clark Juliano, alguns projetos devem ter que ser reprecificados diante da alta do dólar. "Alguns dos nossos projetos têm compra de equipamentos internacionais, isso corre o risco de reprecificar", disse ele.

O dólar começou a subir com mais força no mercado internacional em maio, por conta das expectativas de que o Federal Reserve, o banco central dos EUA, irá reduzir suas compras de títulos ainda este ano. As compras de 85 bilhões de dólares em títulos por mês pelo Fed tem alimentado a alta liquidez no mercado internacional, favorecendo as moedas dos países emergentes.

2,70

Enquanto isso, outros setores industriais do país, como fabricantes de máquinas e equipamentos, torcem para que o real desvalorize pelo menos até o patamar de 2,70 reais por dólar.

Segundo a associação que representa o setor, a Abimaq, a queda do real pouco fez para reverter o déficit comercial da indústria de máquinas, que de janeiro a julho subiu 20,6 por cento sobre um ano antes, para 12,4 bilhões de dólares.

A avaliação é que a mudança de patamar do real vai ter efeitos mais pronunciados nos próximos seis meses, após as empresas do país voltarem a se animar a disputar encomendas com rivais asiáticos.

"O problema é que eu não sei que câmbio eu coloco hoje, só sei que a 2 (reais por dólar) não vai voltar mais. Estamos esperando", disse o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto.

"Com o câmbio a 2,60, 2,70, boa parte de nossa (diferença de) competitividade com Estados Unidos e Europa estaria resolvida, mas isso desde que as outras moedas não sofram a mesma desvalorização", disse Aubert.

No setor de consumo, um dos segmentos que torce para uma desvalorização ainda maior do câmbio é o de brinquedos, que vive às turras com importadores de produtos asiáticos.

Com compras de produtos concentradas no início de cada ano, o setor espera por um avanço do dólar a 2,70 reais no começo de 2014, o que minaria a concorrência dos importados na formação de estoques para o restante do ano.

"Dois e setenta (reais por dólar) para mim seria um sonho", disse o presidente da Abrinq, Synésio Batista da Costa. Ele afirmou que cerca de 50 empresas importadoras de brinquedo devem mudar de atividade este ano.

"Quando todo mundo sair às compras em janeiro em Hong Kong, eu quero que o dólar esteja o mais alto possível, porque, afinal de contas, é o único item econômico que ajuda a indústria brasileira de brinquedos e outras contra o chinês, que tem condições de governo que não temos e não teremos no Brasil", acrescentou.

Por Alberto Alerigi Jr., com reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro

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