ANÁLISE-Indústria brasileira ainda não sente efeito positivo do câmbio

quinta-feira, 5 de setembro de 2013 10:54 BRT
 

Alberto Alerigi Jr.

SÃO PAULO, 5 Set (Reuters) - A desvalorização do real ante o dólar dos últimos meses está sendo comemorada com cautela pelo empresariado brasileiro que disputa mercado no Brasil e no exterior, e indústrias de vários setores se mostram reticentes em alterar suas estratégias para aproveitar o movimento cambial.

Empresários e executivos de setores que vão de brinquedos a veículos afirmam que os efeitos da desvalorização cambial devem se tornar positivos no médio a longo prazos, mas por ora estão focados em mitigar a alta dos custos de insumos importados por meio do repasse para os preços ou redução de margens.

A situação tem causado atrasos na definição de investimentos para os próximos anos e no fechamento de encomendas com fornecedores, contribuindo para desacelerar a economia neste final de ano e início do próximo.

Além disso, o desejado ganho de competitividade que um real mais fraco pode dar aos produtos brasileiros no exterior em parte está sendo anulado pela desvalorização das moedas de outros países emergentes em relação ao dólar.

A moeda norte-americana, que até abril era cotada na casa dos 2 reais, avançou nos últimos meses para cerca de 2,35 reais, patamar que deve ser mantido até o fim do ano, segundo pesquisa Focus do Banco Central com economistas.

"Essa movimentação muito brusca causa num primeiro momento clima de incerteza em nós e nos nossos clientes no exterior, onde estão enfrentando variações de 10 a 12 por cento (de suas moedas locais contra o dólar) nos últimos três a quatro meses", disse Ricardo Portolan, gerente de operações comerciais para o mercado externo da fabricante de ônibus Marcopolo, uma das maiores exportadoras do Brasil.

Segundo ele, a Marcopolo tem tentado buscar mais negócios em mercados cujas moedas não sofreram desvalorização acentuada nos últimos meses, mas esses países estão mais concentrados no Oriente Médio e África, regiões que enfrentam tensões geopolíticas exacerbadas pela crise no Egito e na Síria.

"Índia, Turquia e África do Sul tiveram variações do dólar praticamente na mesma proporção do Brasil", disse Portolan. "Alguns clientes comentaram que estão preferindo aguardar um pouco antes de fechar uma compra. Não chega a ser significativo agora, mas está ocorrendo", acrescentou.   Continuação...