12 de Setembro de 2013 / às 18:58 / em 4 anos

ANÁLISE-Dificuldades do Brasil continuarão depois que turbulência global passar

Por Bruno Federowski

SÃO PAULO, 12 Set (Reuters) - Mesmo quando os investidores tiverem digerido por completo a mudança da política monetária dos Estados Unidos e a tormenta que vem assombrando os mercados emergentes passar, o Brasil deve continuar em mares mais turbulentos do que alguns de seus pares em desenvolvimento.

Após meses de instabilidade, os mercados financeiros do país tiveram um início de mês tranquilo em setembro. Mas mesmo se o pior tiver ficado para trás, a avaliação de analistas é que os investidores continuarão a exigir rendimentos maiores de ativos brasileiros diante da deterioração dos fundamentos macroeconômicos.

“Na hora em que passar esse efeito de ajuste das carteiras, uma vez superado esse processo, não seria uma surpresa se houver um certo diferencial (entre Brasil e outros mercados emergentes) no spread de risco, ou mesmo no câmbio”, disse a sócia da Gibraltar Consulting Zeina Latif.

A evidência mais gritante do mau humor internacional foi sentida no mercado doméstico de câmbio: entre maio e agosto, o dólar acumulou alta de quase 20 por cento em relação ao real. No entanto, a divisa norte-americana fechou a semana passada em queda e voltou a ser negociada abaixo de 2,30 reais, levando alguns a ver um arrefecimento no desconforto dos investidores.

Ainda assim, ativos brasileiros apontam para uma reavaliação do risco de se investir no país. O custo de se proteger contra um calote brasileiro, representado pelos CDS (Credit Default Swaps) de 5 anos, por exemplo, subiu 67 pontos básicos desde maio, para cerca de 175 pontos básicos.

Isso significa que o custo para proteger 10 milhões de dólares em dívida soberana brasileira, por um período de cinco anos, passou de 108 mil dólares ao ano no início de maio para um pouco mais que 175 mil dólares --aumento de 62 por cento. No dia 21 de agosto, este custo chegou a 216,8 mil dólares ao ano -- maior nível em mais de quatro anos.

Em comparação, o custo do mesmo CDS mexicano subiu apenas 37 pontos básicos no mesmo período, para 118 pontos básicos, enquanto o CDS chinês aumentou apenas 10 pontos, para 81 pontos básicos.

Já o rendimento (yield) do título soberano brasileiro Global 23, referência do país, subiu 70 por cento desde o início de maio para 4,5 por cento ao ano. Por sua vez, o yield do título de 10 anos do governo mexicano equivalente subiu cerca de 35 por cento, para 4,13 por cento.

“A gente começou a entrar na categoria de países em que você não confia na rigidez da política econômica”, disse o diretor de gestão de recursos da Ativa Corretora, Arnaldo Curvello.

CENÁRIO DE MUDANÇAS

O gatilho para essas mudanças na dinâmica de risco mundial foram as crescentes evidências de que o Federal Reserve, banco central norte-americano, deve reduzir ainda este ano seu ritmo de seu programa de compra de títulos, atualmente em 85 bilhões de dólares ao mês.

Isso deve tornar os EUA ainda mais atraentes para investidores, desviando para a maior economia do mundo recursos atualmente aplicados em mercados emergentes.

“Houve dois movimentos claros: num primeiro momento, a gente não percebe uma piora no risco global de modo geral, mas a gente percebe uma piora concentrada em mercados emergentes”, disse o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani.

“Num segundo momento, começou a haver alguma diferenciação em meio aos países emergentes. E aí o Brasil ficou num bloco com que os investidores têm mais insegurança”, disse Padovani, em referência ao chamado grupo “Fragile Five”, formado por Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia.

Embora sejam economias bastante diversas, esses países têm em comum o fato de terem sido os mais afetados pela perspectiva de mudança da política monetária do Fed e de registrarem persistentes déficits em conta corrente.

O déficit em transações correntes do Brasil atingiu 77,7 bilhões de dólares nos 12 meses até julho deste ano, equivalente a 3,39 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) do país. É o pior resultado para 12 meses desde junho de 2002, quando o país vivia uma crise de confiança por conta da perspectiva de eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República.

Analistas destacam, além do rombo externo, outros dois fatores macroeconômicos por trás dessa decepção: baixo crescimento e inflação alta.

“O Brasil entrou nesse processo de mudança global com fundamentos bastante deteriorados. Ainda resta navegar nesses desafios internos, na parte macroeconômica, que o Brasil está bem longe de equacionar”, disse o diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos.

A inflação acumulada em 12 meses até agosto ficou em 6,09 por cento, não distante do teto de 6,5 por cento da meta de inflação, de 4,5 por cento mais 2 pontos percentuais de tolerância.

Esses dados são o pano de fundo do aumento do risco de se investir no Brasil, o que pode ser atribuído em parte à condução da política econômica do governo da presidente Dilma Rousseff.

As principais críticas são a flexibilização da política fiscal, com o uso de engenharias financeiras para cumprir as metas de superávit primário no último ano e estímulos excessivos ao consumo para dar fôlego ao crescimento econômico num momento de carência de investimentos.

“Houve uma exaustão, uma mistura de falta de diagnósticos claros do que tinha que ser feito com políticas que eram, às vezes, incompatíveis umas com as outras e com excesso de manipulação da economia”, disse Zeina, da Gibraltar.

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