ANÁLISE-Como amantes infelizes, Brasil e EUA se frustram de novo

quinta-feira, 19 de setembro de 2013 17:23 BRT
 

Por Brian Winter

SÃO PAULO, 19 Set (Reuters) - Todas as vezes que Brasil e Estados Unidos chegam ao altar, o teto da igreja parece desabar.

Em 1982, o presidente norte-americano Ronald Reagan foi ao Brasil para um banquete planejado para sinalizar uma nova era nas relações entre os dois maiores países das Américas. Mas quando Reagan ergueu a taça de vinho e brindou ao "povo da Bolívia", a situação pareceu confirmar os piores temores dos anfitriões: que os EUA viam o Brasil apenas como mais um país pobre na região tida como seu quintal.

Esta semana, a esperança de um avanço desmoronou novamente, e de um modo ainda mais dramático.

A decisão da presidente Dilma Rousseff de cancelar sua visita de Estado à Casa Branca, o único evento formal desse tipo planejado para Washington este ano, é um revés embaraçoso que provavelmente vai brecar a cooperação no comércio, assuntos regionais e outras questões nos próximos anos.

Dilma, uma esquerdista pragmática, ficou indignada com as recentes revelações de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) espionou suas comunicações privadas, bem como a de seus principais assessores.

Embora os dois países continuem a manter de modo geral relações cordiais, Dilma planeja adotar algumas medidas retaliatórias, incluindo novas taxações e normas onerosas para companhias norte-americanas de Internet operando no Brasil, e o afastamento da possibilidade de compra de caças da Boeing, segundo disseram autoridades à Reuters.

Ela afirmou que a espionagem é "incompatível" com um relacionamento entre aliados, e disse a assessores que não há sentido em levar adiante uma viagem cuja ostensiva finalidade era simbolizar o crescente respeito.

O cancelamento de uma visita de teor tão elevado, apesar de apelos pessoais de última hora do presidente dos EUA Barack Obama a Dilma, aborreceu autoridades dos dois países. Além disso, causou também uma familiar sensação de desapontamento entre observadores que há muito tempo tentavam fincar melhores relações entre as duas democracias gigantes e similares em sua história de cadinho multirracial.   Continuação...

 
O presidente dos EUA, Barack Obama, reúne-se com a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, na Casa Branca em Washington, EUA. Todas as vezes que Brasil e Estados Unidos chegam ao altar, o teto da igreja parece desabar. 9/04/2012 REUTERS/Kevin Lamarque