11 de Outubro de 2013 / às 00:24 / em 4 anos

ENTREVISTA-Mantega: redução gradual de estímulos nos EUA está precificada

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, chega a entrevista com a Reuters em São Paulo. 10/10/2013 REUTERS/Nacho Doce

Por Patrícia Duarte e Cesar Bianconi

SÃO PAULO, 10 Out (Reuters) - Uma redução gradual do programa de estímulos do Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, já está precificada pelo mercado, mas novos desequilíbrios à economia mundial devem ocorrer quando os EUA voltarem a elevar os juros, afirmou nesta quinta-feira o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em entrevista exclusiva à Reuters.

Para ele, no entanto, o aperto monetário nos EUA deve ocorrer apenas após 2014, quando já deverá ter saído do papel o fundo de contingenciamento de reservas sendo desenhado pelos Brics --grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul --, o que reduziria o impacto do juro norte-americano maior sobre os emergentes.

O Fed vem injetando mensalmente 85 bilhões de dólares na economia dos EUA através da compra de títulos de dívida para estimular a atividade. Os mercados financeiros globais estão em compasso de espera pela redução dos estímulos há meses, depois que autoridades do BC norte-americano começaram a dar sinais nessa direção.

“Se (os EUA) anunciarem: ‘nós vamos diminuir 10 bilhões de dólares por mês, em vez de 85 bilhões, serão 75 bilhões’, certamente uma decisão como essa, a meu ver, tende a não ter efeito nenhum”, afirmou Mantega. “Não estamos falando de enxugamento da liquidez internacional, estamos falando de uma expansão (monetária) menor”, acrescentou.

Para cuidar de questões internas, o ministro optou por não ir ao encontro do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial em Washington nesta semana e quando representantes do G20 se reunirão. Ele defendeu que seria importante o comunicado do G20 incluir três objetivos: resolução do teto da dívida dos EUA, melhora na comunicação do Fed e trabalhar para melhorar a atividade europeia.

Mostrando-se cautelosamente otimista com o futuro da economia mundial, o ministro disse ainda que a atual política monetária do Brasil não inibe o crescimento e os investimentos, argumentando que a taxa real de juros (descontando a inflação) continua baixa. “Não me parece necessário que a gente volte para taxas reais de juros de 8 ou 10 por cento”, afirmou.

Na noite de quarta-feira, o Banco Central elevou a taxa básica de juro Selic em 0,50 ponto percentual, a 9,5 por cento, no quinto movimento de alta seguido e deixando claro para economistas e o mercado que deve levá-la a 10 por cento em novembro.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Mantega.

REUTERS - Como o senhor avalia o impasse nos EUA sobre a elevação do teto da dívida?

MANTEGA - Hoje esse é o problema mais emergente para a economia global, porque caso não prevaleça o bom senso, de fato teremos um problema sério na economia mundial. Os EUA estão em recuperação e a continuidade disso é muito importante para a economia mundial. Eu acho improvável um default nos EUA, teria que acontecer uma insensatez, seria a reversão da reversão: a política monetária é a única arma que restaria para ajudar a economia. Ficamos com uma situação esdrúxula nos EUA, uma política monetária expansionista e uma política fiscal contracionista, os EUA ficaram mancos, com uma pata a menos.

- A nomeação da Janet Yellen como chairwoman do Federal Reserve, banco central dos EUA, é benéfica para os países emergentes, para o Brasil?

MANTEGA - A nomeação da nova presidente do Fed é importante. Eu acredito que a Yellen vai dar continuidade à política e filosofia do (atual chairman) Ben Bernanke, parece que é a pessoa mais alinhada com ele. A política de “soft landing” dos estímulos é a mais adequada para os EUA e para o mundo, é obrigatório que se faça a redução de estímulos, mesmo porque os EUA não estão demonstrando todo esse desempenho, não estão ainda com uma recuperação consolidada da economia. Uma retirada gradual significa maior estabilidade nos fluxos de capitais e cambiais.

- A redução dos estímulos já está precificada nos ativos, embora ela ainda não tenha começado?

MANTEGA - Com certeza já está precificada. Veja, não estamos falando de enxugamento da liquidez internacional, estamos falando de uma expansão (monetária) menor. É algo que não deveria ter uma repercussão tão grande, o que tem mais repercussão seria a subida dos juros norte-americanos, isso pode causar desequilíbrios na economia mundial. Mas a elevação do juro (nos EUA), pelo visto, está postergada para não sei quando, para além de 2014 aparentemente.

- Isso significa que os mercados não reagirão quando o Fed efetivamente reduzir os estímulos?

MANTEGA - Se eles anunciarem ‘nós vamos diminuir 10 bilhões de dólares por mês, em vez de 85 bilhões serão 75 bilhões’, certamente uma decisão como essa, a meu ver, tende a não ter efeito nenhum. Agora, se tomarem uma decisão mais forte, poderá haver. Acho que o mercado já precificou uma redução de 10 bilhões a 15 bilhões. O termômetro para isso é a economia norte-americana. Se o desempenho continuar moderado, ainda mais atrapalhado por essa história fiscal que causou certamente algum retrocesso na economia dos EUA que não vai crescer 2 por cento (em 2013), isso vai refletir na política do Fed. Não é possível uma reação tempestiva do Fed.

- Os Brics estão criando um fundo virtual de reservas de 100 bilhões de dólares que poderia ajudar os emergentes a lidarem com a volatilidade resultante da elevação do juro nos EUA no futuro. Esse fundo estará operacional quando o Fed começar a subir o juro?

MANTEGA - Eu acredito que sim, vai depender do empenho dos países na aprovação em seus congressos. O fundo contingente de reservas está avançando bem porque todos os países concordam que ele é necessário e importante. Provavelmente na reunião de Fortaleza, de março de 2014, poderemos firmar esse acordo de reservas, não há divergência quanto ao valor, há discussões de alguns detalhes. Se pode sacar 30 por cento da sua cota sem maiores burocracias, depois disso vai para análise do FMI.

- Representantes do G20 se reúnem nesta semana durante encontro do FMI e do Banco Mundial em Washington. O que o senhor espera do comunicado do G20 após a reunião?

MANTEGA - As preocupações principais são resolver o impasse (sobre o teto da dívida dos EUA) e moderar a redução dos estímulos, porque isso causou turbulências nos últimos meses, agora deu uma acalmada, mas sempre é um problema potencial. Certamente o comunicado deve ter uma referência para que haja uma comunicação clara e mais precisa (sobre a redução dos estímulos pelo Fed). Um terceiro ponto é no sentido de trabalhar pela recuperação europeia, ela está dando os primeiros sinais, está engatinhando, mas ela tem que acontecer. Os emergentes foram atingidos não por excesso de liquidez como diz o FMI, mas pelo retrocesso econômico dos países europeus. Os europeus têm que se esforçar mais.

- A queda do comércio global, então, prejudicou mais os emergentes do que as políticas monetárias expansionistas nas economias desenvolvidas?

MANTEGA - O principal problema para os países emergentes foi a queda do comércio internacional, não vamos escamotear e dizer que foi o excesso de liquidez. Os países emergentes se ressentiram, principalmente a China, pela queda da exportação. E a China tem um impacto no mundo e nos emergentes. Os outros problemas mundo afora são decorrência disso: déficit em transações correntes, crescimento menor e queda da renda. Os fenômenos monetários são a consequência.

- O que pode ser feito para garantir uma recuperação mais consistente da Europa?

MANTEGA - É preciso balancear melhor as políticas fiscal e monetária. Melhorou um pouco porque alguns países flexibilizaram um pouco a política fiscal, tem que se insistir nisso, de países europeus com situação fiscal mais equilibrada, a Alemanha, a Holanda, os países do norte da Europa, a própria França. É fazer uma política de ajuste fiscal mais de longo prazo do que de curto prazo.

- Mas não há muita visibilidade sobre quando o comércio internacional vai melhorar...

MANTEGA - No fim de 2013 e em 2014 poderemos ter uma ligeira recuperação da economia mundial, com os EUA um pouco melhor superando o problema fiscal, a China voltando a crescer um pouquinho mais e a União Europeia crescendo um pouquinho mais. Os emergentes não deixaram de crescer, eles continuam crescendo mais. Os emergentes, principalmente os Brics, vão continuar puxando o crescimento da economia internacional.

- E o Brasil?

MANTEGA - Estamos aumentando gradualmente o crescimento, no primeiro semestre crescemos mais do que muitos países, inclusive emergentes.

- O comércio internacional não ajuda e o consumo já não cresce como antes. Há alternativa para o Brasil crescer que não seja pelo investimento?

MANTEGA - O crescimento da economia brasileira já está sendo puxado pelo investimento. É a variável que mais cresce, principalmente produção de máquinas e equipamentos. O consumo vai voltar a crescer, não esqueça que o Brasil constituiu um grande mercado de consumo, ele está avançando, só que num ritmo menor. Você tem 100 milhões de pessoas na classe média, e a massa salarial continua crescendo, vai crescer este ano de 1,5 a 3 por cento. O vetor mais importante é o investimento em infraestrutura, onde o governo está dando muitos estímulos.

- Qual o efeito dos investimentos em infraestrutura na economia do Brasil em 2014?

MANTEGA - Se conseguirmos realizar boa parte das concessões e fazê-las funcionar, só em 2014 teremos 30 bilhões a 40 bilhões de reais só com essas concessões, isso dá 0,8 ponto percentual do PIB, mais o efeito multiplicador disso.

- Aqui no Brasil vimos bastante turbulência no câmbio por causa do Fed, mas há algumas semanas ele ronda os 2,20 reais. É esse o patamar?

MANTEGA - A volatilidade diminuiu, ela é ruim para os negócios e para os mercados, então a situação já melhorou. Aonde o câmbio vai se situar eu não sei, estamos hoje com câmbio mais dependente dos fundamentos e do mercado, ele vai continuar flutuando, mas estava flutuando em demasia. Se espera que diminua (a volatilidade) e o governo trabalha para isso.

- O dólar a 2,20 reais ajuda nas exportações?

MANTEGA - A armadilha é o ministro dizer qual é o câmbio desejável. Eu posso dizer que o câmbio nesse patamar está, sim, estimulando exportações. Eu verifico que as exportações de manufaturados têm melhorado, embora tenhamos um comércio internacional contraído... Vai ser favorável mesmo quando a economia internacional voltar a funcionar numa velocidade maior e quando o comércio mundial estiver se recuperando.

- E a política monetária do Banco Central, ela está influenciando a atividade econômica? O BC elevou o juro básico para 9,5 por cento e indicou que deve continuar subindo a Selic.

MANTEGA - Estamos falando de variação de taxa de curto prazo. Ela flutua de acordo com as necessidades da política monetária do BC. Se olharmos a taxa de juros real, ela é uma das mais baixas que o Brasil teve nos últimos tempos. Lembre-se que o Brasil já teve juro real de 8 por cento, 10 por cento. A taxa real de juro que temos hoje não inibe o crescimento, o investimento.

- Há tabu em levar a Selic para dois dígitos?

MANTEGA - Eu não vi essa discussão, as pessoas inventam e depois derrubam tabu. Nunca o governo falou: ‘não pode ser dois dígitos, um dígito ou meio dígito’. A taxa tem que ser adequada para a política monetária e para o crescimento. O importante é que não está se retornando ao passado. Agora, nós nunca dissemos não pode passar de X, Y ou Z. Assim como o câmbio, a taxa de juro de curto prazo tem que ser flexível e de acordo com a necessidade da política monetária. Além disso, com a situação fiscal sólida que temos, você precisa de taxas de juros menores para administrar a política monetária.

- Recentemente as agências de risco S&P e Moody’s rebaixaram a perspetiva para o rating do Brasil e citaram preocupação com a situação fiscal...

MANTEGA - Não se esqueçam que nos últimos dois, três anos o Brasil galgou níveis de risco menores, até 2008 o país não era grau de investimento. O viés se adapta a situações circunstanciais. E não se alterou o rating. A Fitch, por exemplo, não alterou nem a tendência. Cada agência faz o seu julgamento. Não vejo grandes problemas nisso, e nós temos uma situação mais sólida do que vários países emergentes, e continuamos reduzindo nossa dívida líquida.

- Mas a dívida bruta sobe.

MANTEGA - Há uma controvérsia a respeito da dívida bruta. Devemos enviar uma equipe técnica para tentar explicar ao FMI que a nossa dívida bruta não é aquela que diz o fundo, o fundo se equivoca ao dizer que nossa dívida bruta é de 68 por cento do PIB. Vamos mandar uma missão técnica para o FMI, falei com a (a diretora-gerente Christine) Lagarde um mês atrás em São Petersburgo. Eles se equivocam, nossa dívida não é 68 por cento, eles fazem dupla contagem de dívida. O Tesouro emite títulos da dívida que estão na carteira do BC, porque ele não pode emitir títulos. Ele usa o título para fazer política monetária, essa dívida não está no mercado. E há também os aportes no BNDES, que vai devolver o dinheiro ao Tesouro.

- Sobre combustíveis, há algum aumento da gasolina encaminhado até o fim do ano?

MANTEGA - Não há nenhuma previsão no momento. O que eu posso dizer é que no momento não há. Mas isso não é pré-estabelecido e as bases de referência têm se alterado bastante, o câmbio foi e voltou e o preço do petróleo, com Síria, foi e voltou. São muitas variáveis que estão nesse jogo, a tendência é que haja uma convergência de preços.

Reportagem adicional de Silvio Cascione

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