5 de Novembro de 2013 / às 19:14 / 4 anos atrás

Dólar sobe 2% e caminha para R$2,30, de olho no Fed e fiscal

Por Marília Carrera e Bruno Federowski

SÃO PAULO, 5 Nov (Reuters) - O dólar saltou quase 2 por cento nesta terça-feira, caminhando para 2,30 reais, com investidores preocupados com a piora no cenário fiscal brasileiro e cautelosos antes da divulgação de importantes dados econômicos nos Estados Unidos, que podem trazer sinais mais claros sobre os próximos passos da política monetária norte-americana.

Com a escalada do dólar ante o real, já começa haver discussões nas mesas de câmbio de que o Banco Central brasileiro poderia aumentar a intensidade de suas intervenções nos mercados, de olho no impacto da valorização do dólar sobre os preços.

O dólar avançou 1,98 por cento nesta sessão, a 2,2893 reais na venda, após atingir 2,2946 dólares na máxima do dia. É a maior alta de fechamento para a divisa desde 21 de agosto, quando subiu 2,39 por cento, um dia antes de o BC anunciar seu programa de intervenções diárias no mercado.

Segundo dados da BM&F, o volume de negócios ficou em aproximadamente 1,5 bilhão de dólares.

"Os motivos da alta do dólar são as notícias sobre o déficit (primário) no país e a preocupação com a decisão do Fed (sobre a redução dos estímulos)", resumiu o gerente de câmbio da Pioneer Corretora, João Medeiros.

Os investidores estão temerosos com a situação fiscal brasileira depois da divulgação, na quinta-feira, que o setor público registrou o pior déficit primário para meses de setembro, praticamente enterrando a possibilidade de a meta ajustada, de 2,3 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), ser atingida neste ano.

Com a deterioração das contas públicas, deterioram as avaliações de risco sobre a economia brasileira, algo que pode espantar os investidores estrangeiros e reduzir a entrada de moedas no país.

A disparada do dólar no mercado brasileiro ocorreu mesmo com a atuação diária do BC que, nesta manhã, realizou mais um leilão de swap cambial tradicional, com a venda de 8,1 mil contratos com vencimento em 1º de abril de 2014 e 1,9 mil contratos com vencimento 2 de junho de 2014. Os volumes financeiros equivalentes das operações foram de 403 milhões e 94,2 milhões de dólares, respectivamente.

Alguns especialistas já levantavam a hipótese de intervenções extras da autoridade monetária para conter o avanço da moeda norte-americana. De acordo com analistas da H.Commcor, as especulações no mercado de câmbio giravam em torno de uma possível rolagem antecipada dos swaps com vencimento no dia 2 de dezembro, que somam o equivalente a 10,11 bilhões de dólares.

"O BC vai olhar para o mercado e, se a volatilidade piorar, ele pode atuar novamente", afirmou o operador de câmbio da Renascença, José Carlos Amado.

Para o superintendente de câmbio da Intercam, Jaime Ferreira, a tendência é que realmente o dólar continue a subir ante o real, uma vez que os fluxos de saída tendem a ganhar força no fim de ano, com empresas fechando balanços e protegendo seus passivos e multinacionais enviando remessas ao exterior.

Segundo ele, caso a moeda norte-americana supere muito o patamar de 2,30 reais e se aproxime de 2,40 reais, o BC pode alterar sua estratégia de intervenções diárias, uma vez que a valorização do dólar tende a pressionar o nível de preços por meio do encarecimento de importados.

No mês passado, o BC deixou de rolar alguns dos contratos que venceram em 1º de novembro. Foi a primeira vez que isso ocorreu desde o início do programa de intervenções diárias.

O BC anunciou no fim de agosto, quando o dólar flutuava perto de 2,45 reais, que passaria a atuar diariamente nos mercados de câmbio, realizando leilões de swap cambial tradicional --equivalentes a venda futura de dólares-- em todos os pregões de segunda a quinta-feira e ofertando dólares com compromisso de recompra às sextas-feiras.

Após o fechamento do mercado, a autoridade monetária informou que fará na quarta-feira mais um leilão de swap cambial tradicional previsto pelo cronograma de intervenções diárias, com as mesmas condições da operação desta sessão.

Operadores também ressaltavam que houve fluxo de saída de recursos neste pregão, o que também ajudou a elevar o dólar.

À ESPERA DO FED

Temores de que o Federal Reserve, banco central dos EUA, reduza seu programa de estímulos ainda este ano também ajudou a elevar a moeda norte-americana, deixando os investidores ansiosos pelos próximos indicadores sobre a saúde da maior economia do mundo, sobretudo o relatório de emprego que será divulgado na sexta-feira.

"Neste momento o Fed é o coringa do mercado", afirmou o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo. "O mercado está preocupado com os EUA, de olho se vai ocorrer a redução dos estímulos ou não, à espera da divulgação do relatório de emprego na sexta-feira", acrescentou.

Ainda no cenário externo, declarações do primeiro-ministro da China, Li Keqianq, alertando o governo contra afrouxar ainda mais a política monetária, intensificou o movimento de aversão ao risco nos mercados internacionais.

"Sem estímulos, a economia chinesa poderá crescer menos e isso aumenta a percepção ao risco", disse o estretegista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

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