10 de Janeiro de 2014 / às 13:27 / em 4 anos

IPCA tem maior alta em 10 anos em dezembro e frustra objetivo do governo em 2013

Uma vendedora em uma feira nas ruas da Vila Madalena em São Paulo. Pressionado por preços de alimentos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2013 com alta de 5,91 por cento, dentro da meta oficial mas acima do resultado do ano anterior, frustrando o objetivo final do governo. 09/11/2013 REUTERS/Nacho Doce

Por Camila Moreira e Rodrigo Viga Gaier

SÃO PAULO/RIO DE JANEIRO, 10 Jan (Reuters) - Pressionado por preços de alimentos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2013 com alta de 5,91 por cento, dentro da meta oficial mas acima do resultado do ano anterior, frustrando o objetivo final do governo.

Só em dezembro, o IPCA subiu 0,92 por cento, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, maior resultado mensal desde abril de 2003 (0,97 por cento).

Com isso, 2013 marcou o quarto ano seguido em que a inflação brasileira fica próxima ou acima de 6 por cento. Em 2010, a inflação medida pelo IPCA ficou em 5,91 por cento, indo a 6,50 por cento em 2011 e a 5,84 por cento em 2012. A meta do governo é de 4,5 por cento, com tolerância de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Os resultados ficaram acima da expectativa em pesquisa da Reuters, cuja mediana apontava alta mensal de 0,82 por cento em dezembro e de 5,82 por cento no ano passado.

De acordo com o IBGE, em 2013 o principal impacto veio de Alimentação e Bebidas, com alta acumulada de 8,48 por cento. Mesmo tendo desacelerado ante 2012 (quando subiu 9,86 por cento), o grupo sozinho teve um impacto de mais de um terço sobre toda a alta do IPCA no ano passado, mais exatamente 2,03 pontos percentuais.

“Apesar do recorde de safra, os alimentos vêm subindo de forma sistemática nos últimos anos. O clima vem afetando os preços aqui e lá fora... e a demanda mundial vem crescendo”, afirmou a economista do IBGE Eulina Nunes dos Santos, acrescentando que a demanda por alimentos no Brasil e no exterior está cada vez mais forte.

O resultado do IPCA no ano só não foi pior porque, em janeiro, o governo promoveu forte redução no valor das tarifas de energia elétrica e, em meados do ano, o aumento dos preços do transporte público foi revogado em várias capitais após intensas manifestações populares.

Os preços de energia elétrica residencial fecharam o ano passado com queda média de 15,66 por cento, tendo impacto de -0,52 ponto percentual no IPCA, segundo o IBGE.

Já Transportes, apesar da revogação da alta das tarifas, ainda subiu 3,29 por cento no ano, ante 0,48 por cento em 2012, com impacto de 0,64 ponto percentual no IPCA fechado em 2013. Isso apesar de os ônibus urbanos terem chegado ao final de 2013 com variação positiva de apenas 0,02 por cento e impacto zero.

“A verdade é que se não fosse a ajuda do governo, a inflação seria maior. Energia e ônibus foram fundamentais para conter a taxa desse ano, sem dúvida”, completou Eulina.

Os custos dos serviços mantiveram-se em níveis altos em 2013, com alta de 8,75 por cento ante 8,74 por cento no ano anterior e, segundo analistas, essa tendência não deve se enfraquecer em 2014.

Na variação mensal, segundo o IBGE, o maior destaque do IPCA em dezembro coube ao grupo Transportes, com alta de 1,85 por cento, ante 0,36 por cento em novembro, em boa parte devido ao reajuste da gasolina --sozinha teve impacto de 0,15 ponto percentual no índice. Passagens aéreas tiveram impacto de 0,12 ponto.

Em dezembro, o índice de difusão do IPCA também aumentou, para 69,3 por cento, ante 68,2 por cento em novembro, segundo cálculos do Banco Fator.

MAIS APERTO

Sem conseguir colocar a inflação na trajetória para o centro da meta, o governo acabou assumindo o discurso de que entregaria o IPCA do ano passado abaixo do visto em 2012. Em agosto passado, por exemplo, o próprio presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, chegou a afirmar que esse era o objetivo.

Para tanto, em abril o BC deu início ao ciclo de aperto monetário que não terminou ainda e tirou a Selic da mínima histórica de 7,25 por cento para o atual patamar de 10 por cento. Mas com o resultado divulgado nesta sexta-feira, a pressão sobre o BC deve aumentar.

“O IPCA atropelou a política monetária, e colocou o Copom e o BC com as calças nas mãos. Se não fosse a alta de juros, provavelmente a inflação teria estourado o teto da meta”, avaliou o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, para quem a Selic terá mais duas altas de 0,5 ponto percentual.

Na próxima semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC fará sua primeira reunião de 2014 e as estimativas na pesquisa Focus do BC são de que haverá alta de 0,25 ponto.

“Fica uma situação difícil para o Banco Central. Esses 5,91 por cento (do IPCA) ficaram bastante acima do que foi em 2012, no momento em que o BC parece ter decidido reduzir o ritmo (de aumento) da Selic”, disse o economista da Rosenberg & Associados Fernando Parmagnani, acrescentando que o ciclo de aumentos pode ser mais longo, com três movimentos de 0,25 ponto.

O presidente do BC, Alexandre Tombini, afirmou que a inflação de 2013 mostrou resistência “ligeiramente acima” do esperado, “em grande medida” devido à depreciação cambial, aos custos originados no mercado de trabalho e às recentes pressões no setor de transportes.

Reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier e Felipe Pontes, no Rio de Janeiro, e Silvio Cascione, em Brasília

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