10 de Março de 2014 / às 18:49 / em 4 anos

ANÁLISE-Foco de empresas do Brasil em eficiência passa por menos investimento em 2014

Por Aluísio Alves

SÃO PAULO (Reuters) - Após vários trimestres de tesoura afiada sobre as despesas, as iniciativas de empresas abertas de vários setores para lidar com o prolongado cenário de baixo crescimento da economia brasileira estão se espraiando para outro alvo: o investimento.

Até agora o anúncio de alta do investimento foi artigo raro entre as que publicaram resultados do quarto trimestre. E quem pretende manter o ritmo o fará preterindo planos de aumento da produção para melhorar a eficiência, ou buscando mais receitas no exterior para ficar menos dependente da economia doméstica.

É o caso de empresas dos setores siderúrgico, petroquímico, de açúcar e álcool, alimentício, varejista e até financeiro.

“O investimento agora não vai ser direcionado para aumento de produção, mas para produtividade”, disse Claudio Galeazzi, presidente executivo da BRF, que planeja investir 1,5 bilhão de reais neste ano, mesmo montante de 2013.

É uma receita parecida com a de líderes setoriais como CSN, Pão de Açúcar, Vale, Braskem, Telefônica Brasil Petrobras, e Cosan.

Embora cada caso reflita também questões específicas das empresas, a convergência para um caminho comum reflete o ambiente no qual o controle de despesas --mantra repetido à exaustão nas conferências com analistas-- já não é suficiente.

“Não tem outro jeito, tem que segurar os investimentos”, resumiu o vice-presidente da Abrasca, entidade que representa as empresas abertas. “Se o investimento for igual ao de 2013 já está ótimo”, disse à Reuters.

O movimento coincide com a sinalização de menor apoio estatal ao investimento. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem admitido que deve emprestar menos do que o recorde de 190,4 bilhões de reais de 2013.

E mesmo o dado recente mostrando que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do quarto trimestre cresceu mais que o esperado não deve mudar a disposição para investir, segundo o economista Aurélio Bicalho, do Itaú Unibanco.

“Em termos de fundamentos, os dados recentes mostram novas quedas da confiança de empresários e sinais de fraqueza dos investimentos, que são reforçados pelo aperto das condições monetárias”, afirmou Bicalho, em relatório.

Nesta segunda-feira, pesquisa do Banco Central com economistas reduziu a projeção de crescimento da economia em 2014, de 1,70 para 1,68 por cento, com expectativa de 2 por cento mantida para 2015.

Surpreendentemente ou não, empresas que sacrificaram planos de investimentos foram bem recebidas pelo mercado, já que isso pode render dividendos aos acionistas. É o caso das operadoras Oi e Telefônica Brasil, que enfrentam acirramento da concorrência e margens apertadas.

A siderúrgica Usiminas recebeu recomendação de desempenho acima da média do mercado para suas ações pelo Itaú BBA, que atribuiu a decisão no fato de que a empresa deve diminuir o investimento, entre outros itens.

Também no setor de aço, a Gerdau preferiu um caminho alternativo. A empresa até previu alta de 11 por cento do investimento em 2014 sobre 2013, mas desistiu de divulgar orçamentos para períodos de cinco anos e não garantiu os recursos de 8,5 bilhões previstos para até 2017 no plano anterior.

A Petrobras, mergulhada num plano agressivo de redução de custos e venda de ativos no exterior, agenda similar à da Vale, enxugou em 6,8 por cento seu plano de negócios para 5 anos, com previsão de investimento de 220,6 bilhões de dólares de 2014 a 2018.

Para o gerente da área de pesquisa do BB Investimentos Nataniel Cezimbra, de maneira geral os investimentos das empresas da bolsa em aumento de capacidade pararam de crescer desde 2011, na cola da economia brasileira mais fraca.

“O ponto positivo é que, no geral, as empresas estão mostrando resiliência e reduzindo a alavancagem”, disse. “Mas num cenário prolongado, isso pode resultar em perda de competitividade”, completou.

CARDÁPIO

Cientes de que controle de despesas e dos investimentos isoladamente podem ser percebidas como respostas simplórias para satisfazer acionistas, as companhias também estão lançando mão de um cardápio diversificado, que inclui elevar preços, vender ativos não estratégicos, diversificar receitas e aumentar o foco no exterior. Tudo para sustentar as receitas.

A CSN vai manter os 2,8 bilhões de reais de 2013, mas deve direcionar 1,5 bilhão desse montante para quase dobrar a capacidade de produção de minério de ferro, quase toda voltada para o exterior.

A Braskem prevê investir 2,7 bilhões de reais em 2014. Disso, um quarto para construir novo complexo no México e 60 por cento para melhoria da produtividade, entre outros itens.

A ViaVarejo, braço de móveis e eletrodomésticos do Grupo Pão de Açúcar (GPA), quer quase dobrar a inauguração de lojas sobre 2013 sem elevar o volume de investimentos.

A empresa de energia e infraestrutura logística Cosan avisou que pode reduzir seu plano de negócios em cerca de 10 por cento neste ano, mas espera aumentar seu resultado operacional medido pelo Ebitda em até 17 por cento.

No setor financeiro, além do discurso alinhado de manter as despesas crescendo no máximo como a inflação em 2014, os grandes bancos estão acirrando a venda de produtos financeiros para depender menos de receitas com operações de crédito.

O Itaú Unibanco, o mais elogiado por analistas pelo quarto trimestre, disse que a compra do chileno Corpbanca, em janeiro, o ajudará a diversificar receitas, deixando o grupo menos exposto a flutuações da economia doméstica, disse o presidente Roberto Setubal.

Caminho parecido planeja a BM&FBovespa, que já faz planos internacionais em 2015, após concluir um bilionário plano de investimentos na unificação de clearings neste ano.

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