27 de Dezembro de 2007 / às 19:33 / em 10 anos

Morte de Benazir lança Paquistão em mares desconhecidos

Por Luke Baker

LONDRES (Reuters) - O assassinato da líder oposicionista Benazir Bhutto lança o Paquistão em uma das piores crises do seus 60 anos de história independente, com a possibilidade de distúrbios e cancelamento de eleições.

Os analistas dizem que o presidente Pervez Musharraf deve aproveitar o momento para reinstaurar o estado de emergência e cancelar, ou pelo menos adiar, as eleições marcadas para o próximo dia 8.

"É correto presumir que as eleições não irão adiante agora", disse Farzana Shaikh, pesquisadora-associada do instituto londrino Chatham House. "O processo eleitoral foi freado. Acho que há uma possibilidade muito real de que Musharraf decida que a situação saiu de controle e que ele precisa impor o estado de emergência outra vez."

Segundo ela, o Paquistão --aliado dos EUA na luta contra a Al Qaeda e o Taliban no Afeganistão-- entrou agora em "mares desconhecidos", o que é especialmente preocupante num país com armas nucleares, em constante crise com a vizinha Índia.

"Esta não é a primeira crise que o Paquistão enfrenta desde sua criação, em 1947, mas eu me inclinaria a dizer que é a pior convergência de crises que já vimos", disse Shaikh.

Bhutto, 54 anos, morreu no hospital após ser vítima de tiros e de uma explosão suicida, durante um ato político em Rawalpindi. Pelo menos outras 15 pessoas ficaram feridas no ataque. Horas antes, três seguidores do outro principal líder da oposição, Nawaz Sharif, haviam sido mortos a tiros.

As primeiras suspeitas recaem sobre os radicais islâmicos, mas analistas dizem que outros adversários de Bhutto, inclusive grupos ligados a Musharraf, não devem ser descartados.

"Vai ser muito difícil estabelecer a verdade que está por trás disso", disse M.J. Gohel, diretor-executivo da Fundação Ásia-Pacífico, ligada ao setor de segurança e inteligência, também com sede em Londres.

"Além de elementos do Taliban e da Al Qaeda, há muitos outros candidatos, dentro dos militantes e dentro dos serviços de inteligência, que nunca tiveram uma boa relação com Bhutto. É claro que há adversários políticos também --ela tinha muitos inimigos dentro do Paquistão, como todos sabem."

Shaikh lembrou o fato de que ela foi morta em Rawalpindi, muito distante da província da Fronteira Noroeste, reduto dos militantes islâmicos. "Esse tipo de fato vai criar preocupações muito sérias sobre se houve algum tipo de conivência política."

Assessores de Bhutto se queixavam frequentemente da falta de segurança oficial para ela. Em outubro, ao voltar do exílio, ela escapou por pouco de um outro atentado suicida, que matou 139 pessoas.

Gohel disse que provavelmente haverá mais violência agora, e que a reintrodução do estado de emergência pode levar a mais repressão e protestos. "Estamos vendo um vácuo político se as eleições não ocorrerem. Os islamistas radicais podem realmente começar a ocupar o vácuo e a operar de dentro dele. O Paquistão é um país que é o lar da Al Qaeda e do Taliban, e obviamente tem armas nucleares e mísseis de longo alcance, tudo isso tem repercussões para o Ocidente e o mundo."

Reportagem adicional de Adrian Croft

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