4 de Janeiro de 2008 / às 20:32 / 10 anos atrás

Política comercial ganha peso com acirramento de prévias nos EUA

Por Nick Zieminski

NOVA YORK (Reuters) - As vitórias de quinta-feira à noite obtidas nas prévias presidenciais de Iowa pelo republicano Mike Huckabee e pelo democrata Barack Obama devem redobrar a atenção a respeito das políticas comerciais dos pré-candidatos antes da realização do segundo round das primárias, em New Hampshire.

O fechamento de postos de trabalho em Estados norte-americanos que realizam as primeiras prévias deve influenciar os eleitores e pode ter implicações de longo prazo na disputa pela Presidência dos EUA.

O nervosismo em torno da situação da economia norte-americana, incluindo a fragilidade do mercado imobiliário e um aumento menor no número de postos de trabalho --especialmente depois da divulgação, na sexta-feira, de dados preocupantes sobre o emprego--, deve influenciar a opinião dos eleitores sobre o lugar dos EUA na economia global, afirmaram especialistas em questões comerciais e manufatureiras.

“Nos primeiros Estados a realizarem as prévias --Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul--, a apreensão gerada pelo comércio e pela globalização e o nervosismo a respeito do futuro ocuparão um lugar de destaque para muitas pessoas”, disse Scott Paul, diretor da Aliança para os Fabricantes Norte-Americanos, um grupo sem filiação partidária.

O setor manufatureiro é o mais importante para a economia desses Estados, nos quais as fábricas de tecido e de móveis têm enfrentado a concorrência de empresas estrangeiras.

O corte de 2.600 postos de trabalho em uma fábrica da Maytag localizada em Newton, Iowa, provocou indignação no Estado, afirmou Paul, cujo grupo defende políticas para fortalecer o setor nos EUA.

“Um dos motivos pelos quais não se dá a atenção devida a isso --o que explica a dramática ascensão de Huckabee-- é que, entre os pré-candidatos republicanos, apenas Huckabee conseguiu identificar-se com a ansiedade sentida pela população em relação à economia e apenas ele conseguiu manifestar isso”, disse Paul.

Na quinta-feira, Huckabee, um ex-governador do Arkansas e ministro batista, e Obama, senador pelo Estado de Illinois, venceram as prévias, o primeiro teste da campanha presidencial de 2008.

Conquistar Iowa vinha sendo o foco central dos pré-candidatos havia meses, mas, no fim de semana, os embates vindouros ganharão cada vez mais destaque.

Os resultados de quinta-feira, no entanto, diminuíram o leque de candidatos e obrigarão os sobreviventes a apresentarem de forma mais clara suas posturas.

“Espero que não surja uma discurseira protecionista só porque eles estão diante de um eleitorado apreensivo com as questões econômicas”, afirmou Cliff Waldman, economista da Aliança de Fabricantes/Mapi.

Questões que vão da guerra e do terrorismo aos produtos importados de baixa qualidade alimentaram a ansiedade quanto à globalização, e os eleitores passaram a prestar mais atenção no custo provocado por esses problemas, disse Waldman.

A integração de grandes países em desenvolvimento como a Índia e a China no sistema mundial de comércio, segundo Waldman, significa que o cenário econômico dos EUA mudou e que já não possui o mesmo peso quando das eleições presidenciais anteriores.

FURACÃO NA CLASSE MÉDIA

Nenhum dos principais candidatos democratas deu apoio a medidas protecionistas --uso de impostos e de outras restrições para proteger as empresas nacionais.

Mas os candidatos sugeriram que seu apoio ao livre comércio faz-se acompanhar de limitações.

A senadora Hillary Clinton, que ficou em um decepcionante terceiro lugar em Iowa, disse que medidas severas de proteção aos trabalhadores e ao meio ambiente precisam integrar o núcleo de todos os acordos comerciais.

Obama afirmou compartilhar da frustração de alguns eleitores com os acordos comerciais e que tornaria mais rígidas as leis relativas ao comércio e à qualidade dos produtos.

No mês passado, o candidato prometeu suspender a importação de brinquedos da China devido à preocupação com a qualidade deles. Mais tarde, Obama voltou atrás em sua declaração.

“A expansão dos mercados globais pode ser algo positivo, mas apenas quando assinamos acordos que colocam em primeiro lugar os trabalhadores dos EUA”, disse o pré-candidato em uma carta de 26 de dezembro enviada à Campanha Comércio Justo de Iowa.

John Edwards, um ex-senador pela Carolina do Norte que bateu por poucos votos Hillary, em Iowa, costuma criticar em seus discursos o poder excessivo das empresas e afirmou que os acordos comerciais precisam ajudar os trabalhadores.

“Eu vejo as dificuldades enfrentadas pela classe média, a perda de empregos, a possibilidade de desaparecerem, na próxima década, 30 milhões de postos de trabalho. E eu encaro isso como um problema pessoal”, disse Edwards, em um discurso proferido em Manchester, New Hampshire, na semana passada.

O próximo líder dos EUA deverá ser, provavelmente, um democrata, opinou Jagdish Bhagwati, autor do livro “In Defense of Globalization” (em defesa da globalização) e membro do Conselho de Relações Exteriores.

Bhagwati acrescentou que o próximo presidente pode começar 2009 com uma dívida diante de alguns sindicatos e outras forças hostis à abertura comercial.

“Eles terão feito tantas promessas, e há tantas pessoas infiltradas nos cargos mais altos de aconselhamento, que aquelas forças exigirão sua recompensa”, disse. “É com isso que estou preocupado.”

Pré-candidatos republicanos que tentam destacar-se, como Huckabee, podem tentar conquistar eleitores de seu partido afeitos à postura de cautela adotada pelos democratas em relação à abertura comercial.

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