ANÁLISE-Rússia e ocidente enfrentam "abismo perigoso"

quinta-feira, 25 de setembro de 2008 14:21 BRT
 

Por Michael Stott

MOSCOU, 25 de setembro (Reuters) - O forte repúdio do Ocidente a Moscou pela invasão da Geórgia no mês passado alimentou um grande ressentimento na Rússia que coloca em risco a segurança na Europa e em outros locais problemáticos.

A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, passou um sermão em seu colega russo Sergei Lavrov durante um encontro nas Nações Unidas em Nova York, dizendo-lhe que a Rússia está isolada. Lavrov rebateu ao afirmar que sua agenda de encontros para o evento nunca esteve tão cheia.

Por trás da resposta estudadamente cortês ficou a sensação, ecoada nas ruas da Rússia, de que o Ocidente não está prestando à renascente potência o respeito que esta acredita merecer. A animosidade, atribuída em outras épocas ao abismo ideológico entre comunismo e capitalismo, se mostra mais resistente do que muitos esperavam.

A mágoa russa em relação à guerra com a Geórgia deriva da falta de disposição dos governos ocidentais para reconhecer publicamente o que muitos dizem em particular --que Tbilisi começou o conflito.

Para piorar, é forte o apoio ocidental ao líder georgiano Mikhail Saakashvili --odiado por Moscou-- e a cobertura da mídia ocidental favoreceu em peso a Geórgia durante o conflito.

"Nunca no último quarto de século a Rússia e o ocidente divergiram tanto sobre a interpretação do mesmo evento", escreveu o comentarista político Georgy Bovt em artigo de opinião intitulado "Divórcio com o ocidente" no site de notícias gazeta.ru.

"Nunca antes o comportamento da Rússia foi apresentado pela mídia ocidental de forma tão diametralmente oposta à forma como este comportamento é percebido pela opinião pública russa."

O ressentimento ainda foi alimentado por uma série de iniciativas ocidentais vistas como hostis a Moscou.

Aos olhos da Rússia, o Ocidente a esnobou ao reconhecer a independência do Kosovo, ignorou suas objeções ao sistema anti-mísseis americano no Leste Europeu, não ouviu suas críticas à invasão do Iraque liderada pelos EUA e quebrou uma promessa feita a Moscou nos anos 1990 de não ampliar a Otan em direção às suas fronteiras.

Agora a paciência da Rússia chegou ao fim.