January 11, 2008 / 7:16 PM / in 10 years

Ex-deputada colombiana relata a odisséia de 6 anos em cativeiro

5 Min, DE LEITURA

BOGOTÁ (Reuters) - A ex-deputada colombiana Consuelo González, libertada pela grupo guerrilheiro Farc depois de seis anos em cativeiro, revelou na sexta-feira que os reféns da guerrilha vivem na selva em condições subumanas, acorrentados e sob o risco das operações militares. González, de 57 anos, foi libertada na quinta-feira, na selva colombiana, junto com a ex-candidata a vice-presidente Clara Rojas, num gesto unilateral das Farc, mediado pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.

A ex-parlamentar agradeceu o empenho de Chávez, que para ela é alguém essencial na possível libertação de 44 outros reféns políticos das Farc.

"Não podemos deixar de lado a ação do presidente Chávez, é essencial e todos os colombianos temos que entender isso como uma ação humanitária, e em nenhum momento como uma intromissão nos assuntos da Colômbia", disse ela à rádio Caracol.

O marido de Consuelo González morreu no período do sequestro, e ao voltar para casa a ex-deputada viu uma de suas duas filhas já transformada em mãe. Conheceu sua neta, que qualificou de inspiração para sua vida.

Sobre o tempo no cativeiro, fez um relato sombrio. "Os militares e policiais ficavam acorrentados o dia todo, com umas correntes no pescoço que tinham que carregar para fazer qualquer tipo de atividade, tomar banho acorrentados, lavar sua roupa acorrentados, comer acorrentados, qualquer coisa que tenham que fazer têm de carregar a corrente", relatou.

"E à noite amarravam as correntes a uma estaca que havia ao pé da cama de cada um deles", disse ela, acrescentando que os civis também dormem acorrentados.

"Imagine neste século, neste momento no mundo, ocorrendo isso. A gente olhava [para os policiais e militares] e dizia: 'Como podem resistir pessoas que já estão há nove e dez anos seqüestradas?' É terrível."

Ela contou que, por razões de segurança e das intensas operações militares, era deslocada pela selva constantemente com os demais reféns.

"Vivemos situações horríveis de risco, de altíssimo risco, sentimos praticamente as bombas a escassos metros de onde estávamos, os helicópteros com suas metralhadoras funcionando e nós muito perto. Viver a guerra é um horror", acrescentou.

À SOMBRA DA MORTE

A política, sequestrada em setembro de 2001, relatou que os guerrilheiros sempre lhes diziam que tinham ordens de matar os reféns em caso de tentativa de resgate pelas Forças Armadas.

"Sim, éramos notificados tranqüilamente por parte de quem estava à frente de nós, das Farc, de que numa tentativa de resgate a ordem que tinham era nos assassinar, éramos absolutamente conscientes disso", disse González, para quem as probabilidades de um resgate militar são mínimas.

Ela contou que os reféns quase sempre dormem em redes penduradas em árvores ou em plásticos estendidos no chão. A alimentação consiste em arroz com lentilhas, feijão, alfarroba ou macarrão. Carne, só quando os guerrilheiros caçam um animal selvagem.

González disse que, embora recebam produtos de higiene pessoal, como sabão, escova de dentes e creme dental, os reféns tomam banho nos rios, em horários impostos pela guerrilha, fazem suas necessidades em latrinas e, mesmo com malária e outras doenças, recebem remédios, mas não atendimento médico.

"Termina-se concluindo que não há nada mais a fazer, senão acatar e se submeter ao que estão impondo; é algo tão complexo e tão difícil", afirmou. "É uma tragédia humana, que não podemos deixar de lado."

A ex-deputada soube que seria solta pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em 17 de dezembro, pela rádio, e no dia 21 começou uma longa caminhada pela selva, que terminou na quinta-feira, com a libertação, depois de burlar contingentes militares.

A política anunciou que começará a lutar pela libertação de seus companheiros que ficaram nos acampamentos guerrilheiros da selva. "O povo tem que se envolver na busca do processo de intercâmbio humanitário, não há outra saída, eu não me perdoaria e não perdoaria à Colômbia se não fizesse absolutamente nada para regressar estes colombianos à sua vida normal e à sua família", concluiu.

Reportagem de Luis Jaime Acosta

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