7 de Julho de 2008 / às 20:37 / 9 anos atrás

ANÁLISE-Usinas de cana do Brasil perdem o boom das commodities

Por Inaê Riveras

SÃO PAULO, 7 de julho (Reuters) - O consumo recorde de etanol no Brasil, o aumento das exportações do biocombustível para os Estados Unidos e a recuperação dos preços do açúcar e do álcool não são suficientes para tirar os usineiros brasileiros do vermelho, segundo fontes do setor.

O preço do açúcar e do álcool vem subindo desde dezembro, impulsionado por compras de fundos de investimentos, após um período de excesso de oferta global e baixa rentabilidade.

Por outro lado, os produtores enfrentam aumento dos custos e a valorização do real frente ao dólar, e nessas condições têm dificuldades em fazer investimentos para manter a posição do Brasil como maior produtor mundial de açúcar e segundo maior de etanol.

"As pessoas falam de um boom das commodities. Mas os preços elevados das commodities em dólares não significam um boom", disse Carlos Murilo Barros de Mello, diretor comercial da Cosan CZLT11.SA (CZZ.N), maior grupo produtor de açúcar e álcool do Brasil.

O país, que já é o maior exportador mundial de álcool combustível, pretende vender 5 bilhões de litros ao exterior neste ano, um recorde impulsionado pelas inundações no Meio-Oeste norte-americano, que afetou as plantações de milho (matéria-prima do etanol dos EUA), e pelo possível aumento nas importações da Europa e Japão.

Também no Brasil o etanol deve superar a gasolina como principal combustível para automóveis neste ano, devido ao crescimento da frota de veículos bicombustíveis.

"Será um boom quando a margem de lucro dos produtores crescer, e essa não é a realidade atual. Talvez seja para a energia e os metais, mas não para o açúcar e o etanol", disse Mello.

O custo de produção do álcool anidro de cana cresceu 20 por cento entre fevereiro de 2007 e abril de 2008, segundo analistas da Datagro, que prevêem mais aumentos até julho. No mesmo período, o preço do álcool anidro no mercado local caiu em média 20 por cento.

CUSTOS E CÂMBIO

"Praticamente todas as commodities subiram, e foi possível compensar todo o aumento nos custos. No etanol e no açúcar, os preços precisariam subir muito mais para atingir esse nível", disse Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da Unica, entidade que representa o setor no centro-sul do país.

Assim como outros setores, o sucroalcoleiro teve perda de lucratividade não só devido aos custos de produção, mas também por causa da valorização do real.

Desde abril de 2007, início da safra 2007/2008, o real se valorizou 27 por cento frente ao dólar. "O verdadeiro problema não é o preço, mas os custos e o câmbio", disse Luiz Guilherme Zancaner, presidente do grupo Unialco.

De acordo com ele, o preço dos fertilizantes subiu 64 por cento em um ano. Há também mais gastos com diesel e pessoal.

Na opinião de Pádua, tudo isso afetou o setor, mas ele diz que a qualidade da cana nesta safra também foi aquém do desejável.

Segundo ele, o rendimento industrial da cana --a quantidade de sacarose por tonelada da cana-- está inferior ao da mesma época do ano passado, quando o tempo seco contribuiu com a concentração de açúcar nas plantas.

Com menos teor de açúcar, as usinas conseguem produzir menos açúcar e álcool por cada tonelada colhida, transportada e moída. Segundo Pádua, uma redução de 8 quilos no teor de açúcar implica uma perda de 5 litros de etanol por tonelada de cana processada.

"Eu diria que o lucro nesta safra será inferior ao da anterior, que já foi difícil. Os preços possivelmente serão mais altos (do que na safra 2007/08), mas os custos serão ainda maiores", previu ele.

O aumento dos custos de produção já se reflete em atrasos em projetos de novas usinas, pois os investidores já não parecem tão entusiasmados quanto há alguns anos.

"Os projetos que estão sendo construídos foram decididos em 2006, 2007. Não se vê qualquer novo investimento para estar pronto em 2011, 2012", disse Pádua. Normalmente, são necessários três anos para que uma nova usina entre em operação.

"Os preços precisam atingir 17 centavos (de dólar por libra-peso) para que o Brasil volte a plantar cana. A 15 cents nenhuma usina será construída", disse Mello, da Cosan.

Fundos de investimentos e multinacionais são a maioria entre os atuais investidores, e se os preços não compensarem os custos de produção e o capital investido "não haverá mais produção", segundo ele.

Mas ele acrescentou que tal situação poderia estimular os preços a atingirem cerca de 17-18 cents por libra nos próximos dois anos, revertendo o ciclo.

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