23 de Janeiro de 2008 / às 20:12 / 10 anos atrás

Velório no Quênia acaba em violência; Annan promove diálogo

Por Andrew Cawthorne e Nick Tattersall

NAIRÓBI (Reuters) - A polícia do Quênia usou gás lacrimogêneo na quarta-feira contra jovens que atiravam pedras perto do velório de membros da oposição. No mesmo dia, porém, o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan obteve um início positivo em sua missão para tentar mediar a crise política no país.

Em seu primeiro dia no Quênia, Annan convenceu o Movimento Democrático Laranja (ODM, principal partido da oposição) a cancelar as manifestações marcadas para serem retomadas na quinta-feira.

"Atendendo a um pedido da equipe de mediação, cancelamos as atividades planejadas para amanhã", disse William Ruto, dirigente do ODM, a jornalistas após líderes do partido se reunirem com Annan.

Annan esteve com o líder oposicionista Raila Odinga, e antes havia se encontrado com o presidente do Parlamento e com o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, que também tenta mediar a crise. Ainda na quarta-feira, Annan seria recebido pelo presidente Mwai Kibaki, mas o encontro foi cancelado.

O velório de 28 favelados supostamente mortos pela polícia durante manifestações contra o governo teve cenas caóticas. Várias cápsulas de gás lacrimogêneo caíram no campo de futebol de Nairóbi onde Odinga fazia uma oração diante dos caixões.

Depois disso, jovens seguidores da oposição atearam fogo a uma agência de correio perto dali.

"Esta é uma guerra entre o povo do Quênia e um pequeno bando de gente muito sedenta de sangue que deseja se aferrar ao poder a todo custo", disse Odinga à multidão, enquanto a violência tomava conta de uma rodovia próxima. "Vamos nos erguer como um só povo para libertar nosso país."

Cerca de 650 pessoas já morreram desde a eleição de dezembro, que deu um novo mandato ao presidente Mwai Kibaki, acusado pela oposição de ter fraudado o pleito. Pelo menos mais duas pessoas foram mortas numa favela de Nairóbi na manhã de quarta-feira.

A polícia suspendeu a proibição de manifestações públicas, que vigorava desde a posse de Kibaki, em 30 de dezembro, quando houve distúrbios e saques. A exceção foi aberta para que houvesse homenagens do ODM aos seus "combatentes da liberdade" mortos na favela de Kibera.

O dia começou pacificamente, com centenas de seguidores da oposição numa passeata que partiu de Kibera, reduto da etnia luo, de Odinga. O evento ficou violento quando cerca de 12 jovens pararam alguns carros numa rodovia, quebraram vidros e agrediram os ocupantes que não pertenciam à tribo luo.

Testemunhas disseram que a polícia interveio, mas inicialmente sem fazer disparos, enquanto cada vez mais jovens apedrejavam-nos. Só então recorreram ao gás lacrimogêneo, parte do qual caiu no gramado, dispersando os líderes do ODM e assustando os participantes do velório.

Quando a polícia recuou, os jovens incendiaram uma agência postal, quebraram vidraças e derrubaram um muro.

O ODM queixou-se posteriormente que a polícia teria agredido pessoas pacíficas que participavam do velório.

Reportagem adicional de Joseph Sudah, Duncan Miriri e Bryson Hull

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