August 13, 2008 / 3:57 PM / 9 years ago

Geórgia e Rússia trocam acusações sobre trégua

8 Min, DE LEITURA

<p>O presidente da Ge&oacute;rgia Mikheil Saakashvili (dir) ao lado do ministro das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores da Fran&ccedil;a, Bernard Kouchner, que est&aacute; em miss&atilde;o da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia para intermediar o fim do conflito na regi&atilde;o da Oss&eacute;tia do Sul, em Tbilisi dia 10 de A Ge&oacute;rgia acusou a R&uacute;ssia na quarta-feira de violar o fr&aacute;gil cessar-fogo anunciado ap&oacute;s seis dias de conflito. Photo by Stringer</p>

Por Margarita Antidze e Paul Taylor

TBILISI/BRUXELAS (Reuters) - A Geórgia acusou a Rússia na quarta-feira de violar o frágil cessar-fogo anunciado após seis dias de conflito, uma alegação rebatida com vigor pelo governo russo.

Em uma atmosfera marcada por uma troca constante de acusações, o presidente georgiano, Mikheil Saakashvili, disse que tanques russos haviam invadido a cidade de Gori e avançavam rumo à capital do país, Tbilisi. Mais tarde, porém, uma vice-ministra corrigiu essas afirmações.

Segundo o governo russo, o governo georgiano mentia. "Não há soldados ou veículos blindados da Rússia locomovendo-se rumo a Tbilisi," disse à Reuters o coronel-general Anatoly Nogovitsyn, vice-chefe do Estado-Maior da Rússia.

Testemunhas contaram que soldados russos haviam montado ao menos dois postos de controle a vários quilômetros de Gori, e a Rússia afirmou mais tarde ter assumido o controle sobre um depósito de munição georgiano abandonado e situado perto daquela cidade, famosa por ser o local de nascimento de Josef Stalin.

O poderio militar russo, muito superior ao georgiano, humilhou o país vizinho, que, na quinta-feira, lançou uma tentativa mal sucedida de retomar o controle sobre a região pró-Rússia da Ossétia do Sul, provocando uma gigantesca retaliação.

Em Bruxelas, a União Européia (UE) deu apoio ao envio de monitores de paz para a Ossétia do Sul a fim de supervisionar um cessar-fogo mediado pela França. O bloco também acertou intensificar o envio de ajuda humanitária.

"Estamos determinados a entrar em ação naquela área", disse o ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, depois de participar de um encontro de emergência convocado para debater os esforços de mediação do país dele, atual presidente da UE.

Um porta-voz da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) disse que os EUA haviam convocado uma reunião de chanceleres dos países-membros da entidade a fim de falar sobre a crise na Geórgia. Ao mesmo tempo, as potências ocidentais, divididas, tentavam chegar a um acordo sobre como responder à cabal demonstração de força da Rússia.

Os EUA --aliado fiel da Geórgia-- e a Grã-Bretanha defenderam Saakashvili e criticaram a ação russa, considerada desproporcional.

No entanto, a França, a Alemanha e a Itália, que mantêm laços políticos mais próximos e relações comerciais mais intensas com a Rússia, tomam cuidado para não ficar do lado de ninguém, pressionando, ao invés disso, pelo fim da violência.

Bandeiras foram hasteadas a meio mastro enquanto os russos e os georgianos velavam seus mortos.

Os EUA disseram dispor de relatos confiáveis sobre a ocorrência ainda de atos violentos na Ossétia do Sul e conclamaram a Rússia a impedir "forças irregulares" de atacarem civis.

"Temos relatos dignos de crédito dando conta de que vilarejos estão sendo queimados e de que assassinatos estão ocorrendo", afirmou o enviado dos EUA na região, Matthew Bryza.

Saakashvili, dando declarações cada vez mais acaloradas em uma enxurrada de entrevistas concedidas a canais de TV de língua inglesa, acusou a Rússia de cometer "atrocidades" na Ossétia do Sul.

"Os tanques russos estão entrando em vilarejos habitados por georgianos e estão expulsando as pessoas de suas casas, estão levando as pessoas para campos de concentração montados nesses vilarejos e estão separando os homens das mulheres", afirmou ao canal norte-americano CBS.

A informação não pôde ser verificada por fontes independentes.

A vice-ministra georgiana do Interior, Ekaterine Zguladze, afirmou mais tarde, em uma entrevista coletiva: "Eu gostaria de acalmar todo mundo. Os militares russos não estão avançando para nossa capital."

Dentro e nas cercanias da capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, devastada durante o ataque georgiano, podia-se ainda ouvir o disparo ocasional de armas de pequeno calibre. Mas não ocorreram outros grandes incidentes.

"A situação agora é de um pós-guerra", afirmou Irina Gagloyeva, porta-voz do governo da Ossétia do Sul. "Estamos nos aproveitando dessa trégua para enterrar novamente os que morreram durante a agressão georgiana."

"Muitos foram enterrados às pressas no local em que tinham morrido --em canteiros ou em jardins. Ontem, tiramos 18 corpos em decomposição de debaixo de destroços em Tskhinvali. Hoje, encontramos mais quatro."

A GEÓRGIA VAI PERDER SUAS REGIÕES REBELDES?

Analistas disseram que a tentativa mal sucedida da Geórgia de retomar à força, na semana passada, o controle sobre a Ossétia do Sul diminuía em muito as chances de que o território separatista regresse, junto com outra área rebelde, a Abkházia, para o domínio georgiano.

Segundo a Rússia, 1.600 civis foram mortos quando a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, apesar de essa cifra não ter sido confirmada por fontes independentes. O Estado-Maior da Rússia disse que 74 soldados russos morreram nos combates, os quais deixaram outros 171 feridos e 19 desaparecidos.

O governo georgiano afirmou que, de seu lado, 175 pessoas morreram e centenas ficaram feridas. Esse dado não inclui a Ossétia do Sul.

A Rússia anunciou o envio de um pacote emergencial de ajuda para a região separatista. O ministro russo das Finanças, Alexei Kudrin, prometeu 10 bilhões de rublos (414 milhões de dólares) para reconstruir a Ossétia do Sul.

O plano de paz mediado pela UE poderia fornecer a base para que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU coloque um fim definitivo ao conflito.

Segundo analistas, porém, a Geórgia pode ver-se obrigada a realizar concessões dolorosas, já que foi derrotada no campo de batalha e forçada a ceder terreno tanto na Ossétia do Sul quanto na Abkházia.

A versão atual do plano de paz menciona o respeito às "soberania e independência" da Geórgia, mas não faz referência a sua "integridade territorial" --permitindo possivelmente uma discussão sobre o status dos territórios separatistas.

Na quarta-feira, a Abkházia disse que suas forças haviam expulsado os soldados georgianos do desfiladeiro de Kodori, na fronteira do território com o restante da Geórgia.

A manobra significa um duro golpe para o governo georgiano, já que o local era a única parte significativa da Abkházia ainda sob controle dele.

O Ocidente deu sinais de que convocaria uma força de paz multinacional para substituir a força russo-georgiana presente na Ossétia do Sul e na Abkházia. E um novo processo pode ser iniciado para resolver as disputas surgidas quando as duas regiões livraram-se do controle georgiano, no começo dos anos 90.

Tanto a Abkházia quanto a Ossétia do Sul possuem uma população que pertence a grupos étnicos diferentes do georgiano e que fala línguas próprias.

Reportagem adicional de Sue Pleming em Washington, Francois Murphy em Paris, Dmitry Solovyov em Vladikavkaz, Margarita Antidze e James Kilner em Tbilisi, e Oleg Shchedrov em Moscou

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