14 de Março de 2008 / às 18:18 / em 10 anos

Manifestantes queimam carros no Tibet; China culpa Dalai Lama

Por Chris Buckley e Lindsay Beck

PEQUIM (Reuters) - Manifestantes pró-independência queimaram lojas e carros em Lhasa, capital do Tibet, na sexta-feira, mesmo dia em que policiais chineses teriam matado duas pessoas na cidade, na pior onda de instabilidade surgida na região em duas décadas.

A China acusou simpatizantes do líder espiritual do Tibet, Dalai Lama, atualmente exilado, de “arquitetar” o levante, que mancha a imagem do país cuidadosamente construída de prosperidade e harmonia nacionais, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim.

O Dalai Lama pediu que a China pare de usar a força e que dê início a um diálogo com os tibetanos. Manifestações semelhantes ocorridas em outras oportunidades foram violentamente esmagadas pelas forças de segurança chinesas com armas de fogo e prisões em massa.

As passeatas pacíficas realizadas por monges budistas nos últimos dias deram lugar a multidões em fúria enfrentando policiais.

“A situação está bem caótica nas ruas”, afirmou por telefone um tibetano que mora na região. “As pessoas estão queimando carros, motos e ônibus. Há fumaça por todos os cantos. Eles estão atirando pedras e quebrando janelas. Nós estamos com medo.”

A Rádio Ásia Livre disse que a polícia chinesa disparou contra os manifestantes, matando dois deles. A informação teria sido repassada por testemunhas que a rádio não identificou.

Uma fonte afirmou à Reuters que dois tibetanos tinham sido mortos por disparos de arma de fogo perto do Monastério Ramoche, nas cercanias de Lhasa. Não foi possível obter maiores informações sobre essas supostas mortes.

Os moradores da área do templo Jokhang, na parte velha de Lhasa, contaram ter visto grupos de policiais antimotim. Mas nenhum deles ouviu disparos de armas de fogo. “Estamos esperando para ver o que acontecerá amanhã”, afirmou uma tibetana. “A coisa pode piorar muito.”

Até 400 manifestantes reuniram-se na área de um mercado das proximidades do templo Jokhang, na manhã de sexta-feira, e foram atacados por cerca de mil policiais, segundo uma testemunha citada por Matt Whitticase, da Campanha Liberdade no Tibet, em Londres.

Um tibetano que mora na região disse que alguns manifestantes gritaram palavras de ordem pedindo independência em relação à China. “Os monges não estão mais sozinhos. Agora, vários moradores da área participam dos protestos”, afirmou.

RESSENTIMENTO

A atuação da China no Tibet tornou-se foco de campanhas às vésperas das Olimpíadas. Nesta semana, passeatas foram realizadas no mundo todo para lembrar o 49o aniversário do fracassado levante tibetano contra o domínio chinês. Após esse ato, o Dalai Lama fugiu para a Índia.

Aquelas passeatas aparentemente incentivaram os monges budistas a tomarem as ruas de Lhasa, desafiando a forte presença policial na área e os relatos de que vários dos monastérios tinham sido fechados.

“Esses protestos são uma manifestação do ressentimento profundamente arraigado na população tibetana em relação ao governo atual”, afirmou o Dalai Lama em um comunicado nesta sexta-feira.

“Eu, em vista disso, apelo à liderança chinesa para que deixe de usar a força bruta e para que dê ouvidos aos antigos ressentimentos do povo tibetano por meio do diálogo com o povo tibetano.”

As autoridades chinesas mostram-se impassíveis. “O governo da Região Autônoma do Tibet disse na sexta-feira ter encontrado indícios suficientes para provar que as recentes sabotagens ocorridas em Lhasa foram organizadas, premeditadas e arquitetadas pelo círculo do Dalai Lama”, afirmou a agência chinesa de notícias Xinhua.

“A violência, envolvendo espancamentos, agressões, saques e incêndios, abalou a ordem pública e ameaçou a vida e os bens da população”, disse uma autoridade daquele governo.

As manifestações significam que o presidente chinês, Hu Jintao, chefe do Partido Comunista do Tibet em 1989, quando a China impôs uma lei marcial na região para sufocar as manifestações de oposição ao domínio chinês, não dispõe de nenhuma opção fácil.

Reportagem adicional de Ben Blanchard e Benjamin Kang Lim em Pequim, Bappa Majumdar e Jonathan Allen em Nova Délhi, Sue Pleming em Washington, e Huw Jones e Adrian Croft em Bruxelas

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