15 de Novembro de 2007 / às 19:20 / 10 anos atrás

Caminho do Brasil para a Opep é longo e incerto, dizem analistas

Por Andrei Khalip

RIO DE JANEIRO (Reuters) - A descoberta de gigantescas reservas de petróleo na semana passada, na bacia de Santos, gerou enorme otimismo no governo, mas dificilmente o país poderá se tornar membro da Opep num futuro próximo.

A Petrobras diz que o campo Tupi, localizado na chamada camada pré-sal, tem potencial para 5 a 8 bilhões de barris de petróleo leve e gás, o que faz dessa uma das maiores descobertas de combustível no mundo nos últimos 20 anos. Por causa da profundidade da água e da camada de sal, a exploração do campo é um projeto desafiador.

Alguns membros do governo dizem que essa e outras descobertas no pré-sal podem elevar o Brasil “ao nível da Arábia Saudita e da Venezuela”, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a cogitar publicamente uma adesão à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Mas analistas dizem que o custoso desenvolvimento desses poços levaria pelo menos seis ou sete anos, e que em breve a euforia deve dar lugar a um debate no governo sobre a conveniência de exportar esse combustível ou de preservar as reservas para as futuras necessidades internas.

“Ainda há muitas incógnitas sobre as reservas e a produção planejada, enquanto a complexidade é enorme ..., e já há uma discussão sobre quão atrativas as grandes exportações de petróleo são para o Brasil”, disse Caio Carvalhal, pesquisador-associado da Associação de Pesquisa Energética de Cambridge.

O consultor brasileiro Jean-Paul Prates disse que o Brasil pode se tornar “um exportador natural”, mas não deve ter pressa, como outros países que não têm nada além de petróleo para vender. “É preciso manter o ritmo de exploração da reposição de reservas. Apressar as coisas só vai antecipar o fim das reservas”, afirmou.

A Petrobras espera ter em funcionamento até 2011 um projeto-piloto para a extração diária de 100 mil barris do campo Tupi, para até 2013 levar outras plataformas e ampliar a produção para 400 mil barris diários.

Mas analistas dizem que esse cronograma é bastante otimista, especialmente diante dos atrasos da Petrobras nos últimos anos no início de outros grandes projetos.

“A Petrobras já tem dificuldades em cumprir projetos de complexidade normal, imagine um projeto inovador como esse. Ninguém pode garantir nada lá”, acrescentou Carvalhal.

No ano passado, o Brasil se tornou um exportador líquido de petróleo (ou seja, exporta mais do que importa), e mesmo antes da descoberta no campo Tupi o setor já esperava ter um maior excedente para exportação, chegando a meio milhão de barris em 2012 (já somada a produção de grandes empresas estrangeiras, como Chevron e Shell ).

O campo Tupi pode ampliar essa cifra para mais de 900 mil barris de petróleo por dia -- uma quantidade notável, mas ainda modesta em comparação aos dez maiores exportadores do mundo.

“Mas esse excesso de oferta depende da economia brasileira. O consumo per capita é muito pequeno, então se o crescimento econômico explodir, podemos ter um sério crescimento no consumo de derivados de petróleo”, disse Mauro Andrade, da Deloitte-Touche Tohmatsu.

Economistas dizem que o Brasil só tem petróleo excedente porque teve uma das menores taxas de crescimento dos últimos 20 anos na América Latina. Agora, porém, a economia vem se acelerando, e o governo espera anos de expansão robusta pela frente.

Analistas também lembram que uma eventual (e por enquanto improvável) redução do preço do petróleo, que está em valores recordes, pode esvaziar o interesse econômico da exploração da camada pré-sal.

“Sim, as perspectivas mudaram, mas é um petróleo muito caro, e tudo depende dos preços. Se o petróleo cair a 30 dólares por barril, se o petróleo cair para onde estava em 2002, simplesmente não há mais Tupi”, disse Carvalhal.

Reportagem adicional de Denise Luna no Rio de Janeiro

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