3 de Março de 2008 / às 20:27 / 9 anos atrás

América Latina se mobiliza para conter crise regional

Por Julio César Villaverde

RIO DE JANEIRO (Reuters) - A América Latina se mobilizou na segunda-feira para evitar que a pior crise diplomática da região em décadas, provocada por uma incursão militar da Colômbia no Equador, transforme-se em um conflito de graves consequências.

Os efeitos da ação militar de sábado, na qual foi morto o número dois da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Raúl Reyes, se agravaram após as duras declarações do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Depois de acusar o presidente colombiano, Alvaro Uribe, de ser "um mentiroso, um mafioso e um paramilitar", Chávez determinou o envio de mais soldados para a fronteira com a Colômbia, mesma manobra adotada pelo presidente do Equador, Rafael Caldera.

Os dois países retiraram seus embaixadores de Bogotá.

"Potencialmente, essa é a crise mais grave que a América do Sul enfrenta desde a quase guerra entre a Argentina e o Chile em 1978 e a guerra das Malvinas", afirmou Eduardo Viola, professor de relações internacionais na Universidade de Brasília.

O último conflito bélico na América do Sul ocorreu em 1995, quando Equador e Peru protagonizaram choques fronteiriços por conta de uma velha questão limítrofe, e foi solucionado por gestões de um grupo de "países amigos", integrado por Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos.

Na segunda-feira, os países da região intensificaram as consultas iniciadas no fim de semana para conter a crise, incluindo contatos entre presidentes e chanceleres.

O Brasil, que possui um reconhecido papel de liderança sobre os vizinhos, usará "toda a força" de sua diplomacia e coordenará ações com o governo dos outros países a fim de limitar a crise, afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Iniciando esses esforços, Lula "conversará por telefone, na segunda-feira, com a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner", acrescentou García à rádio CBN.

O governo brasileiro não pretende interferir com os assuntos internos de outros países, "mas nosso princípio de não interferência não pode significar indiferença", afirmou o assessor.

Por sua parte, o Conselho Permanente da Organização dos Estados Americano (OEA) convocou uma reunião extraordinária para terça-feira com o propósito de tratar do conflito.

EXPLICAÇÕES AO EQUADOR

Em Santiago, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, disse que a incursão militar colombiana "merece sem dúvida uma explicação da parte da Colômbia aos equatorianos, ao presidente dos equatorianos e à região como um todo."

Bachelet afirmou à rádio chilena ADN que seu governo havia entrado em contado com a Argentina e o Brasil, bem como com o chefe da Organização dos Estados Americanos (OEA), para avaliar a situação.

"Todos nós queremos que haja paz, paz na região, e nesse sentido tanto a OEA como presidentes, os colegas, o presidente Correa, todos nós podemos desempenhar um papel tendo isso em mente", acrescentou.

O presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, condenou a operação militar da Colômbia e atribuiu aos organismos internacionais a obrigação de "encarar com seriedade a situação a fim de que possamos avançar preservando a paz e a convivência pacífica."

O Peru, vizinho da Colômbia e do Equador, manifestou sua "enorme preocupação" com a crise, afirmando esperar que os dois países mais a Venezuela possam superá-la.

"No Peru, confiamos que os laços históricos desses três países pesem muito mais que qualquer diferença circunstancial e que, de forma definitiva, seus presidentes e corpos diplomáticos saibam encontrar uma saída apropriada," afirmou o primeiro-ministro peruano, Jorge del Castillo, a uma rádio.

O presidente do México, Felipe Calderón, conversou mo domingo, por telefone, com seus colegas de Equador e Colômbia sobre "a delicada situação entre os dois países", disse a Presidência mexicana em comunicado.

Calderón expressou a "vontade de seu governo de apoiar qualquer ação, a pedido das partes, que favoreça o diálogo entre as nações, com o propósito de que a relação bilateral recupere sua normalidade o mais rápido possível", acrescentou a nota.

O ex-presidente cubano Fidel Castro, amigo de Chávez e de Correa, disse que "soam com força no sul do nosso continente as trombetas da guerra, e isso por consequência dos planos genocidas do império ianque."

"Nada de novo! Estava previsto!", acrescentou, em um texto publicado no jornal Granma. Fidel ainda lamentou o fato de Correa ter sido obrigado a cancelar sua visita a Cuba, onde seria o palestrante principal de um seminário sobre a globalização e o desenvolvimento.

No entanto, observou o professor Viola, apesar de a crise ser potencialmente muito grave, "dificilmente eles (os protagonistas da crise) avançarão para além da retórica."

Reportagem adicional de Antonio de la Jara em Santiago; María Luisa Palomino e Marco Aquino em Lima, Esteban Israel em Havana, Daniela Desantis em Assunção, e Pablo Garibian na Cidade do México

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