26 de Fevereiro de 2008 / às 14:36 / 10 anos atrás

Sonhos de consumo continuam distantes para cubanos

HAVANA (Reuters) - Discos de vinil, maçanetas de porta e uma desbotada decoração natalina, tudo recoberto por pó, despontam aqui e ali nas prateleiras meio vazias de uma loja de departamentos de Havana que era uma das melhores de Cuba antes de Fidel Castro tomar o poder, meio século atrás.

Fazer compras agora, depois de décadas de comunismo, revela-se uma experiência frustrante para a maior parte dos cubanos, e muitos esperam que o novo presidente do país, Raúl Castro, que sucedeu o irmão doente nesta semana, realize reformas para abrir a economia e aumentar o poder de compra dos moradores da ilha caribenha.

“A gente cumpre longas jornadas de trabalho para ganhar um salário mínimo e chegar no final com nada. Quase não conseguimos comprar comida, e as roupas são caras”, disse Claudia, 21, uma pedagoga que vasculhava as prateleiras pouco abundantes da loja Fin de Siglo (fim de século).

Como muitos cubanos que conversam com repórteres estrangeiros, Claudia não quis informar seu sobrenome.

“Isso é deprimente porque a gente tem desejos, como qualquer pessoa tem desejos”, acrescentou, dizendo que algumas cubanas jovens recorriam à prostituição a fim de ganharem o suficiente para comprarem roupas da moda e maquiagem.

Os produtos na Fin de Siglo têm seus preços fixados em pesos, a moeda na qual quase todos os cubanos recebem seus salários. Esse fato torna esses produtos relativamente acessíveis.

Em lojas próximas, há geladeiras, tênis e bolsas incrementadas à venda. O preço deles, porém, é na moeda forte de Cuba --chamada de peso conversível-- e um par de sapatos custa duas vezes o salário médio de 15 dólares.

O sistema monetário dual é um dos principais motivos de queixa dos habitantes de Cuba, onde uma variada gama de bens, desde presunto em lata a desinfetante de banheiro, é vendida na moeda forte, fazendo deles artigos de luxo.

“Quem não gosta de fazer compras?”, perguntou Eliza, 28, professora, enquanto comprava sapatos para a filha em uma loja de moeda forte. “(Mas) a gente precisa economizar e guardar dinheiro, e algumas vezes dizemos em Cuba que é preciso passar fome para comprar sapatos.”

Outros compradores disseram que o dinheiro enviado por amigos e parentes do exterior, principalmente dos EUA, permitia que comprassem roupas e eletrodomésticos.

O baixo poder de compra não é o único problema enfrentado pelos que saem às compras em Cuba. As mercadorias são de baixa qualidade e pode ser difícil encontrar roupas, e em especial roupas íntimas, no tamanho que se deseja.

As lojas de comida exibem prateleiras vazias e apenas uma pequena seleção de produtos.

“A gente precisa ter sorte, e precisa procurar bastante. Aqui há uns tênis, mas só de tamanho pequeno”, disse Belkis Martínez, 45, atendente de uma loja que vende uma seleção aleatória de saias e vestidos de noiva antiquadas em pesos. Um par de meias de náilon custa cerca de 1 dólar.

Após tomar posse como presidente, no domingo, Raúl Castro prometeu implementar pequenas reformas na economia de Estado a fim de enfrentar as questões sobre as quais os cubanos reclamaram no ano passado durante encontros abertos convocados pelo dirigente.

Raúl disse que o governo estudaria a possibilidade de revalorizar o peso, o que daria aos cubanos um poder de compra maior. Mas alguns moradores do país duvidam que o novo governo adote reformas rapidamente ou que as reformas sejam profundas.

“Não tenho esperança nenhuma de que as coisas mudarão”, afirmou Claudia. “Eu espero, no entanto, que esteja enganada.”

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