30 de Outubro de 2007 / às 19:42 / em 10 anos

ANÁLISE-Relação Argentina-EUA depende de olhar para Chávez

Por Adriana García

WASHINGTON (Reuters) - O modo como a presidente eleita Cristina Kirchner vai conduzir as relações internacionais da Argentina vai determinar se ela conseguirá conciliar as relações amistosas com Washington e a aliança com o governo esquerdista da Venezuela.

Mas especialistas ouvidos em Washington ainda esperam para conhecer a orientação a ser adotada por Cristina, eleita no domingo por ampla margem de votos. Não há previsões de grande mudança, porém, porque a nova presidente sucederá ao seu marido, Néstor Kirchner, que priorizou as questões internas para promover a recuperação da economia depois da crise de 2001-2002.

Para Michael Shifter, da entidade Diálogo Interamericano, Cristina “deve ser mais visível e ativa no circuito internacional do que seu marido, e pode querer deixar sua marca na relação bilateral (com os EUA), mas ainda não está claro se ela quer fazer mudanças em algumas políticas-chave, como a relação da Argentina com (o presidente venezuelano, Hugo) Chávez, e sua postura frente à comunidade financeira internacional”.

Na opinião de Shifter, a tendência é de que as relações com Washington sigam “cordiais, mas distantes”.

Em seu governo, Kirchner optou por se distanciar dos EUA e cortar relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), depois de pagar a dívida com o órgão. Por outro lado, aproximou-se de governos esquerdistas, como o de Chávez, que ajudou a Argentina comprando 5,1 bilhões de dólares em títulos públicos do país depois da moratória da dívida argentina.

Mas essa dinâmica pode mudar com Cristina, que viajou aos Estados Unidos e à Europa durante a campanha presidencial.

ORDEM NA CASA

“É preciso esperar que Cristina preste muita atenção ao tema internacional, porque a Argentina também tem, inclusive por suas necessidades comerciais, a necessidade de ter um vínculo com o mundo,” disse o chefe de gabinete do governo argentino, Alberto Fernández. “Tivemos um pouco de nos fechar em para pôr ordem na casa”, acrescentou, sobre os anos recentes.

Cristina prometeu a continuidade das políticas que levaram à recuperação econômica, mas deverá enfrentar uma alta inflação e uma escassez energética, num momento em que os controles tarifários desestimularam investimentos no setor.

Para atrair investidores, ela teria de buscar um acordo para uma dívida de 6,3 bilhões de dólares pendente com o Clube de Paris, que dependeria do aval do FMI. Ainda não está claro se Washington apoiaria Cristina nessa negociação, segundo Riordan Roett, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade Johns Hopkins.

“Se Cristina for esperta, vai tratar os temas econômicos rapidamente e continuará amigável, mas distante, de Chávez”, afirmou.

“O tema da Venezuela é delicado. Nem os democratas nem os republicanos (dos EUA) gostam de Chávez. Se ela o defender, como fez em Madri em agosto, isso não será positivo”, afirmou.

Larry Birns, do Conselho de Assuntos Hemisféricos, uma entidade de esquerda, considerou que seria lógico que a Argentina mantivesse sua gratidão pela ajuda dada por Chávez na crise, mas é possível que não permaneça tão perto de Caracas.

“Ao mesmo tempo, é provável que a Argentina busque manter uma relação correta e positiva com os Estados Unidos, mas não uma aliança, como as que têm Colômbia e Peru”, disse Birns.

Para Peter DeShazo, ex-diplomata e diretor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, os EUA buscarão também boas relações com Buenos Aires. “Há muitos temas de interesse mútuo, como segurança hemisférica, comércio e desenvolvimento econômico.”

Colaborou Lucas Bergman em Buenos Aires

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