5 de Novembro de 2007 / às 19:16 / 10 anos atrás

ESPECIAL-Governo fomenta criação de grande farmacêutica nacional

Por Renata de Freitas

SÃO PAULO (Reuters) - O BNDES não esconde o jogo: tem o objetivo de constituir uma empresa farmacêutica de capital nacional e alcance global. A reunião de dois ou três laboratórios brasileiros resultaria numa indústria com faturamento anual de 2 bilhões de dólares, que poderia aplicar 5 por cento desse valor em pesquisa e desenvolvimento --seria uma iniciativa de grande porte para os padrões locais.

Essa é a mensagem que o banco de fomento vai levar a representantes da indústria em um encontro no final de novembro com associações do setor, quando apresentará formalmente a versão ampliada do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Complexo Industrial da Saúde, o Profarma. O BNDES tem 3 bilhões de reais para aplicar até meados de 2012 no programa.

"Continuamos acreditando que o setor farmacêutico precisa se consolidar. Precisamos construir empresas grandes que possam concorrer nos Estados Unidos e na Europa", afirmou o diretor do departamento encarregado do Profarma, Pedro Palmeira, à platéia do fórum "Um modelo para a Política Farmacêutica", do Projeto Brasil, na semana passada.

O movimento nessa direção tem certa urgência, segundo o executivo do BNDES. O Brasil passa por um momento favorável, com quatro empresas de capital nacional entre as dez maiores do setor, de acordo com o ranking IMS Health, de setembro.

"Se não aproveitarmos a onda, esse potencial vai ser comido por empresas estrangeiras. Todo país desenvolvido tem indústria farmacêutica forte", declarou Palmeira à Reuters. A Índia e a China são exemplos de países que avançaram e hoje são exportadores, inclusive para o Brasil.

A balança comercial brasileira do setor completará em dezembro uma década de déficit anual acima de 1 bilhão de dólares FOB. O cenário piorou com a valorização do real nos últimos quatro anos, estimulando a importação de medicamentos acabados e de matéria-prima, os princípios ativos. Só este ano até setembro, o déficit já superava os 2 bilhões de dólares.

O BNDES descarta que o foco sejam as exportações, alega que prefere o desenvolvimento do mercado local, mas quer a transferência de tecnologia para o país --e isso seria possível com a criação de uma multinacional brasileira. O BNDES gostaria de ter uma fatia minoritária, mas isso não é uma exigência. Em pequenas empresas, o banco já tem 33 por cento da Nanocore e 20 por cento da Nortec, da Genoa e da Bioinovation.

BOVESPA É APENAS MAIS UMA OPÇÃO

Os laboratórios brasileiros, controlados por grupos familiares e sem ações na bolsa de valores, têm se mostrado aderentes ao conceito de uma grande farmacêutica nacional, mas sinalizam uma disputa pela liderança dessa consolidação e optam por uma estratégia mais cautelosa.

A Aché, por exemplo, terceira no ranking por faturamento, com 1 bilhão de reais em 2006 (a maior é a brasileira EMS, com 1,4 bilhão de reais), admite que está prospectando o mercado. Os preços dos ativos não estão baixos, segundo o principal executivo do Aché, o diretor-geral de operações José Ricardo Mendes da Silva, mas também não há dificuldade em obter capital.

"O que nos atrai são produtos de marca e, principalmente, laboratórios de pesquisa. Gostaríamos muito de unir forças com outros laboratórios que têm pesquisa, desde a radical até a incremental", afirmou Silva à Reuters, nesta segunda-feira.

Pioneira na articulação com o BNDES, tendo obtido em 2006 quase 300 milhões de reais do banco de fomento mais 450 milhões de reais em empréstimos de instituições privadas para a aquisição da brasileira Biosintética Farmacêutica, a Aché vê a possibilidade de combinar renda variável e renda fixa para aquisições.

Mas primeiro quer ter o plano de investimentos definido. "Nossa visão é que fazer abertura de capital para manter recursos em caixa não é interessante", disse Silva. No radar das prospecções está até o Sul da Europa.

Na indústria farmacêutica local, apenas a Farmasa deu os passos iniciais para a oferta de ações, tendo registrado pedido na Comissão de Valores Mobiliários. Os recursos devem ser utilizados, em parte, para "a aquisição seletiva de empresas e/ou produtos estratégicos".

Assim, afirma o laboratório na minuta do prospecto preliminar da oferta, aumentaria a participação no mercado brasileiro. Em 2006, o Farmasa adquiriu a Barrenne Indústria Farmacêutica por 52,3 milhões de reais.

Já o Cristália, líder em volume de vendas para hospitais e quarta em valores nesse segmento, avalia que está bem capitalizada para a expansão passo-a-passo que planeja. Com faturamento de 515 milhões de reais em 2006, o laboratório afirma reinvestir 90 por cento do lucro anual.

A empresa lança esta semana um medicamento para o tratamento da disfunção erétil, o Helleva, resultado de sete anos de pesquisas para o desenvolvimento da molécula sintética. Na linha do que espera o BNDES de uma indústria nacional inovadora, o Cristália foi procurado por quatro multinacionais que teriam interesse em ficar com a segunda marca do produto. A brasileira Aché informou que também está na negociação.

"A Cristália é uma menina bonita cheia de pretendentes", afirmou o presidente do Conselho de Administração, Ogari Pacheco, no evento da semana passada. A estratégia "cabeça nas nuvens e pés no chão", como ele a batizou, inclui o possível licenciamento do produto para EUA e Europa.

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