2 de Outubro de 2008 / às 19:57 / em 9 anos

ANÁLISE-Bancos na A.Latina encaram aperto global do crédito

Por Elzio Barreto

SÃO PAULO, 2 de outubro (Reuters) - Os bancos latino-americanos, atingidos pela queda das ações financeiras neste ano, enfrentarão uma forte desaceleração do crescimento dos empréstimos devido à crise de liquidez que está assolando os mercados globais.

Diferentemente de diversos bancos na Europa, Ásia e Estados Unidos, as companhias latino-americanas possuem pouca ou nenhuma exposição ao Lehman Brothers LEHMQ.PK ou ao crédito hipotecário de alto risco.

Bancos latino-americanos lidaram com hiperinflação, volatilidade política e desvalorização de suas moedas durante os anos de 1980 e 1990, tornando-os mais cautelosos do que seus parceiros norte-americanos. Crises bancárias na região também forçaram os governos a implementarem regulamentações mais rigorosas.

Ainda assim, a escassez de liquidez nos mercados globais já pressionou os custos dos empréstimos e reduziu drasticamente o crédito disponível na região, ameaçando o crescimento das anteriormente aquecidas economias do Brasil e México.

As linhas de credito para exportação estão praticamente secas no Brasil e tomaram um baque no Chile, enquanto na Venezuela o governo ordenou aos bancos que prepararem um fundo para cobrir possíveis perdas com ativos do Merrill Lynch MER.N e do Lehman.

Na Argentina, os bancos têm visto uma desaceleração nos empréstimos e nos depósitos e no México os índices de inadimplência subiram um pouco.

O Bradesco (BBDC4.SA) (BBD.N), maior banco privado brasileiro, reduziu os prazos de financiamento de automóveis para 48 a 60 meses em comparação aos 72 meses anteriores, enquanto os empréstimos consignados foram reduzidos para 60 meses, ante 84 meses.

O banco também se tornou mais seletivo para conceder empréstimos tanto para consumidores quanto corporações.

“ATENÇÃO REDOBRADA”

“Numa situação como essas, a atenção redobra com alguns clientes, alguns setores por conta da queda das linhas de exportação”, disse Norberto Pinto Barbedo, vice-presidente-executivo de médias e grandes empresas.

Os empréstimos bancários no Brasil saltaram 31,8 por cento em agosto em relação a um ano antes, mas o Banco Central prevê que essa expansão vai diminuir e encerrar 2008 entre 22,5 e 25 por cento. Para 2009, os empréstimos deve crescer 19 por cento, segundo a Federação Brasileira de Bancos.

“Os bancos brasileiros sempre lidaram com bastante volatilidade e sempre mostraram bons resultados, mesmo nos momentos mais difíceis,” disse Milena Zaniboni, analista da Standard & Poor’s em Sao Paulo.

Os empréstimos para consumidores e empresas no México, que se expandiram a uma taxa explosiva de 50 por cento ao ano em 2005 e 2006, cresceram 24 por cento em 2007 e apenas 11 por cento em agosto frente ao mesmo período do último ano à medida que os bancos se tornaram mais cautelosos.

O crescimento dos empréstimos a empresas no México deve compensar uma declínio no crédito ao consumidor com o aumento da inadimplência. Ainda assim, mesmo o crédito para companhias está em perigo de perder força se os Estados Unidos caírem em uma trilha de maior desaceleração econômica.

“O problema do atraso nos pagamentos de empréstimos no México tem sido estritamente na área dos empréstimos para o consumidor, concentrado nos cartões crédito. Mas se a situação econômica global continuar se deteriorando... não há duvida que poderia afetar o setor produtivo do México”, afirmou Alejandro Garcia, um analista da Fitch Ratings.

Preocupações de que uma queda nos empréstimos colocaria em perigo o crescimento econômico levou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometer linhas de crédito através de bancos estatais. No México, o ministro da Finanças pediu aos bancos que mantenham o crédito fluindo para projetos de infra-estrutura e construções imobiliárias apesar do derretimento norte-americano.

EMPRÉSTIMOS TÓXICOS

Bancos em alguns países latino-americanos podem estar mais imunes do que outros diante da turbulência financeira, analistas afirmaram. O setor bancário colombiano sozinho possui 6,9 bilhões de dólares de seus 92 bilhões de dólares em ativos investidos fora do país, segundo a superintendência financeira do país.

Aproximadamente 70 milhões de dólares foram depositados de bancos colombianos no Lehman Brothers, o banco de investimento norte-americano que sucumbiu à crise. Mas as regras bancárias colombianas proíbem instituições locais de investirem diretamente em títulos hipotecários norte-americanos, que estavam no coração da crise de crédito.

“Nenhum banco monitorado pela superintendência possui exposição direta aos empréstimos tóxicos que causaram este problema internacional”, afirmou Cesar Paulo, que chefia a superintendência.

A situação é similar na Argentina, onde o controle de capitais torna mais difícil o investimento de bancos em ativos estrangeiros.

“O sistema financeiro argentino reduziu os canais para o contágio (da crise financeira dos EUA)”, afirmou Francisco Prack, econmista-chefe da Grupo SBS, companhia de consultoria financeira e corretora em Buenos Aires.

“Os bancos argentinos possuem basicamente ativos argentinos. É muito incomum para eles se exporem a outros países, pelo menos de uma maneira significativa”, acrescentou.

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