2 de Julho de 2008 / às 17:01 / 9 anos atrás

ANÁLISE-Indústria de celulose caminha para consolidação no país

Por Alberto Alerigi Jr.

SÃO PAULO, 2 de julho (Reuters) - A indústria de celulose do Brasil, atualmente a mais competitiva do mundo em custos, deve entrar num processo de consolidação impulsionado pela necessidade de ganhos de escala e incremento da eficiência operacional, além da crescente demanda pela matéria-prima do papel na Ásia.

Para analistas, os movimentos já começaram e alguns avaliam que a onda pode ganhar corpo em 2009.

O setor deve investir entre 2007 e 2012 até 10 bilhões de dólares em expansão de capacidades produtivas de celulose e construção de bases florestais, segundo dados da Associação Brasileira de Papel e Celulose (Bracelpa), mas analistas afirmam que também será necessário crescimento via fusões de ativos para garantir o retorno dos investimentos em um ambiente de dólar fraco e custos em alta.

"Sem dúvida há uma possibilidade de crescimento além dos investimentos adicionais (em produção)", disse à Reuters o chefe do departamento de papel e celulose do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), André Biazus.

"Vai haver um movimento, sim, de consolidação. O acordo de acionistas da Aracruz venceu e está havendo conversações com empresas do setor", acrescentou. Segundo ele, as companhias brasileiras estão maduras e abertas para uma sociedade com empresas internacionais.

A Aracruz ARCZ6.SA tem uma parceria com a norueguesa Stora Enso (STERV.HE) na Bahia e é a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo, com produção de 3,3 milhões de toneladas por ano --98 por cento dela exportada. Em maio, um acordo de acionistas que impedia alterações no grupo de controle da companhia expirou, abrindo caminho para movimentações no setor.

O controle da Aracruz é formado por BNDES, que tem participação de 12,5 por cento, e também pelos grupos nacionais Safra, Lorentzen e Votorantim, que detêm cada um fatias de 28 por cento. Procurados, Safra e Lorentzen preferiram não comentar o assunto e representantes da Votorantim não estavam disponíveis para falar.

Para o analista Marcelo Luna, do Deutsche Bank, "Aracruz e VCP (Votorantim Celulose e Papel VCPA4.SA) teriam condição de controlar uma parte significativa do volume de terras para florestas no Brasil, com operações nas principais regiões produtoras do país, como Bahia e Rio Grande do Sul".

Além disso, segundo Luna, uma união das empresas geraria mais valor que empresas separadas, uma vez que poderiam cortar gastos com transporte marítimo das exportações, via negociações de frete, além de ampliar seu poder de barganha --por exemplo, diante da altamente concentrada industria global de papel toalha, que usa celulose de fibra curta (eucalipto).

"Aparentemente, as negociações já começaram, mas acredito que vai acontecer em algum momento a consolidação porque faz todo o sentido para as brasileiras, que estão no principal mercado produtor. Acho que talvez seja algo para acontecer a partir de meados do ano que vem", disse Luna.

CUSTOS EM ALTA

A Aracruz, que tem cerca de 7 por cento de participação no mercado global de celulose, tem planos de dobrar sua produção até 2015 para cerca de 7 milhões de toneladas, ganhando corpo num mercado que atualmente produz 55 milhões de toneladas anuais.

Mas investimentos vultosos, aliados a um dólar fraco e aumento de cerca de 50 por cento em custos com terras, além de altas em fertilizantes e transportes, podem pressionar a margem de lucro operacional do setor, que atualmente é de mais de 30 por cento.

Isso incentiva o processo de consolidação no país, aposta o analista André Segadilha, da corretora Prosper.

"A Aracruz precisa ganhar escala... creio que o dólar ficará estável e isso implicaria em necessidade operacional urgente" de consolidação, afirmou Segadilha, apostando que um movimento significativo poderia ocorrer "logo".

Quase na mesma linha está a analista Mônica Araújo, da corretora Ativa. "O setor está muito saudável ainda, mas é necessário aproveitar as oportunidades de uma empresa com maior capacidade de produção", afirmou. O aumento da capacidade "ainda não é suficiente para ter uma escala representativa no mercado mundial."

Para ela, porém, o processo de consolidação pode ser postergado pelo fato de o setor ser marcado por gestão de famílias, como ocorre na Aracruz.

Edição de Daniela Machado e Renato Andrade

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