Medo de grampos? Políticos temem "ligar até para a mãe"

terça-feira, 2 de setembro de 2008 18:56 BRT
 

Por Natuza Nery

BRASÍLIA (Reuters) - Nenhum político quer mais contar segredo ao telefone e já reage desconfiado quando houve um ruído suspeito durante conversa pelo celular.

Um dia depois do escândalo do grampo afastar a cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), congressistas preocupados em não revelar segredos pessoais e da profissão pensam duas vezes antes de abrir o verbo.

A paranóia com escutas ilegais atingiu níveis psicanalíticos desde a reportagem da revista Veja sobre o grampo ilegal em telefonema do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes.

"Ficou todo mundo neurótico no Brasil. Ninguém aqui fala mais no telefone, há medo até de ligar para a mãe", brincou o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), revelando a dimensão da neurose que tomou conta dos gabinetes na capital.

O receio de espionagem não é novo na política brasileira, mas foi multiplicado com a denúncia de que a Abin teria implantado escutas telefônicas para monitorar Mendes, ministros de Estado e políticos do governo e da oposição.

"O meu telefone, de tão grampeado que está, já virou uma rádio comunitária", disse o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, apontado pela reportagem como uma das autoridades ilegalmente monitoradas.

Há políticos que já mandaram trazer dos Estados Unidos aparelhos antigrampo. Outros deputados contrataram empresas no Brasil para criptografar telefones celulares e fixos.

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, é conhecido pelo cuidado que tem em conversas telefônicas. Ele segue o conselho do avô Tancredo, que jamais revelava segredos ao telefone.   Continuação...