3 de Junho de 2008 / às 12:23 / em 9 anos

Na FAO, Lula faz dura defesa do etanol e critica subsídios

SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma dura defesa do etanol brasileiro e uma crítica enfática aos subsídios dados aos agricultores de países desenvolvidos em discurso na reunião da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) nesta terça-feira.

<p>Lula discursa na confer&ecirc;ncia da FAO em Roma, 3 de junho de 2008. Ele defendeu o etanol brasileiro e condenou os criticos, cujas m&atilde;os est&atilde;o 'sujas de petr&oacute;leo'. Photo by Philippe Wojazer</p>

Em sua fala, o presidente apontou os subsídios agrícolas como um dos responsáveis pela recente alta nos preços dos alimentos e afirmou que a acusação de que a produção do etanol tem contribuído para esse fenômeno “não resiste a uma discussão séria” e que o argumento se trata de uma “cortina de fumaça lançada por lobbies poderosos, que pretendem atribuir à produção de etanol a responsabilidade pela recente inflação do preço dos alimentos”.

Ao defender o etanol brasileiro, produzido a partir da cana-de-açúcar, Lula comparou o produto ao colesterol e criticou o biocombustível produzido a partir de alimentos básicos, como o milho.

“Há quem diga que o etanol é como o colesterol. Há o bom etanol e o mau etanol. O bom etanol ajuda a despoluir o planeta e é competitivo. O mau etanol depende das gorduras dos subsídios”, afirmou.

“Não sou favorável a que se produza etanol a partir de alimentos, como no caso do milho e outros. Não acredito que alguém vá querer encher o tanque do seu carro com combustível, se para isso tiver de ficar de estômago vazio.”

Lula aproveitou o discurso na reunião da FAO, que tem como principal ponto de sua agenda a alta nos preços dos alimentos, para rebater com termos duros os críticos dos biocombustíveis.

“Vejo com indignação que muitos dos dedos apontados contra a energia limpa dos biocombustíveis estão sujos de óleo e de carvão”, criticou. “Vejo com desolação que muitos dos que responsabilizam o etanol --inclusive o etanol da cana-de-açúcar-- pelo alto preço dos alimentos são os mesmos que há décadas mantêm políticas protecionistas.”

De acordo com o presidente, que tem feito do etanol um dos pontos principais de sua política externa, “a superação dos entraves atuais requer uma conclusão bem-sucedida, o quanto antes, da Rodada de Doha da OMC (Organização Mundial do Comércio)”.

“Os subsídios criam dependência, desmantelam estruturas produtivas inteiras, geram fome e pobreza onde poderia haver prosperidade. Já passou da hora de eliminá-los”, defendeu.

Recentemente, críticos dos biocombustíveis, particularmente do etanol brasileiro, têm afirmado que o cultivo do produto tem avançado sobre plantações de alimentos. Para Lula, “essas críticas não têm qualquer fundamento”.

“Desde 1970, quando lançamos nosso programa de etanol, a produção do etanol de cana por hectare mais do que dobrou”, disse. “Por outro lado, de 1990 para cá, nossa produção de grãos cresceu 142 por cento. Já a área plantada expandiu-se no mesmo período apenas 24 por cento”, afirmou.

Outra crítica rebatida por Lula no discurso foi a de que as lavouras de cana têm avançado sobre a floresta amazônica. O presidente considerou o argumento “sem pé nem cabeça” e atribuiu a informação a pessoas “que não conhecem o Brasil”.

Lula citou dados, segundo os quais apenas 0,3 por cento da área total de canaviais do país está na região Norte, que abriga a maior parte da Amazônia.

“Ou seja, 99,7 por cento da cana está a pelo menos 2 mil quilômetros da floresta amazônica. Isto é, a distância entre nossos canaviais e a Amazônia é a mesma que existe entre o Vaticano e o Kremlin”, comparou o presidente, citando que o Brasil tem 77 milhões de hectares de terras agrícolas, fora da Amazônia, que ainda não estão sendo utilizados.

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