Real forte muda empresas, que ainda cobram política industrial

terça-feira, 4 de março de 2008 17:44 BRT
 

Por Renata de Freitas

SÃO PAULO (Reuters) - A indústria eletroeletrônica brasileira avalia que já fez o que podia para contornar o real valorizado e continuar exportando. Agora, prevendo déficit comercial do setor de 20 bilhões de dólares em 2008, diz que é hora de o governo adotar uma política industrial que garanta condições de competitividade iguais às de outros países.

"Um setor que tem déficit crônico como o nosso tem a obrigação de apontar para o governo as oportunidades de ocupar este mercado", afirmou o empresário Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), representante de um setor que movimentou mais de 110 bilhões de reais em 2007.

"Não vamos pedir proteção nenhuma para a indústria instalada no Brasil. Não queremos ser chamados de 'órfãos do velho modelo'. Queremos condições de igualdade", declarou a jornalistas ao apresentar nesta terça-feira um documento elencando "Propostas para uma nova política industrial, tecnológica e de comércio exterior".

As sugestões foram discutidas com especialistas do BNDES e de outros órgãos oficiais, segundo Barbato, que fez questão de valorizar a iniciativa do governo de lançar --espera-se para ainda este mês-- uma política industrial. A expectativa da Abinee é de que pelo menos a proposta de desoneração de encargos trabalhistas para os exportadores de software faça parte do pacote.

"Existe um diálogo", comentou o empresário, elogiando a atuação do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, e do presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Por outro lado, Barbato não poupou crítica ao governo Fernando Henrique Cardoso, lembrando que à época se alegava que "a melhor política industrial era não ter política industrial".

NO LIMITE

Sócio da Cerâmica Santa Terezinha, o presidente da Abinee abriu os bastidores dos esforços feitos recentemente para continuar exportando seu único produto, isoladores elétricos de vidro e cerâmica, frente à valorização do real de 26 por cento nos últimos 12 meses.

Na ânsia de reduzir custos, ele baixou a guarda e mudou, por exemplo, a matriz energética da fábrica, em Pedreira, interior de São Paulo, de gás liquefeito de petróleo para gás natural. "Resisti o quanto pude", admitiu, diante do momento delicado de abastecimento de gás natural para a indústria.   Continuação...