7 de Dezembro de 2007 / às 14:54 / 10 anos atrás

Brasil terá que buscar mais trigo fora do Mercosul em 2008

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - A decisão da Argentina de restringir a emissão de registros de exportação de trigo, a maior concorrência pelo cereal do país vizinho e as geadas que afetaram a safra recentemente devem levar o Brasil a importar mais de outras origens em 2008, prevêem fontes do mercado.

A Argentina costuma ser o principal fornecedor do trigo consumido no Brasil. De janeiro a novembro, o país importou 5,2 milhões de toneladas do parceiro comercial do Mercosul, ou 85 por cento das 6,17 milhões de toneladas compradas no exterior este ano. Os brasileiros consomem 10 milhões de toneladas/ano.

No entanto, para 2008, o volume importado da Argentina deve ser menor, pois o cereal argentino, mais barato em relação a outras origens como a norte-americana, tem sido comprado por diversos países além do Brasil.

O governo argentino anunciou nesta semana que os registros ficarão temporariamente suspensos até pelo menos o final do mês, uma vez que o país, após emitir 7 milhões de toneladas em licenças em menos de um mês, tem que avaliar os efeitos das geadas, que podem ter reduzido a safra em até 2 milhões de toneladas.

“Faz a conta aí: o Brasil vai trazer 3 milhões de toneladas do que já foi registrado (na Argentina), tem mais 3 milhões da safra nacional. Então 3 a 4 milhões de toneladas (para completar o consumo anual) virão de outras origens. Quais? Por enquanto é só Estados Unidos e Canadá. E quanto custa? Uma fortuna”, afirmou uma fonte de uma trading internacional.

Este ano até novembro, o Brasil já teve de comprar um volume maior de outras origens, especialmente fora do Mercosul, pagando taxas e fretes mais elevados. Além das mais de 5 milhões de toneladas de trigo argentino, o Brasil importou 354 mil toneladas dos EUA, 327 mil toneladas do Canadá, 146 mil do Uruguai e 106 mil do Paraguai, segundo o governo brasileiro.

A conta que o trader fez para chegar à conclusão de que o Brasil terá de importar mais fora da Argentina foi a seguinte: descontando as perdas pelas geadas, que atingiram especialmente a província de Buenos Aires, e os estoques de passagem, o país vizinho terá uma oferta total de 15 milhões de toneladas de trigo em 2007/08. Os moinhos argentinos consomem 7 milhões de toneladas --já considerando um aumento de moagem que prevê maior exportação de farinha para o Brasil e outras nações.

Sobrariam 8 milhões para exportação do grão, das quais 7 milhões têm que ser embarcadas até fevereiro (já registradas).

Mas algumas fontes do mercado têm dúvidas de que, com 7 milhões de toneladas em licenças para exportar emitidas em menos de um mês, o governo Argentino autorize novas vendas.

“O restante (1 milhão de toneladas) seria mantido pelo governo argentino, até como reserva, com o objetivo de segurar a inflação de preços de alimentos”, disse o trader.

Considerando que não se abram novamente os registros, o Brasil enfrentaria problemas para comprar trigo entre março e maio, período de entressafra no país e de escassez em boa parte dos principais produtores. A produção brasileira só costuma entrar no mercado em agosto/setembro.

“Vai ter um período de aperto em março, abril e maio”, acrescentou ele, observando que o trigo argentino tem sido comprado por Índia, Bangladesh, Tunísia, Marrocos e Argélia, entre outros.

SE LIBERAR...

Mas, na hipótese de os registros serem reabertos, disse um outro corretor, a situação brasileira poderia melhorar em termos de oferta e até financeiramente --o trigo do parceiro comercial do Mercosul é isento de taxas para o Brasil.

O corretor, que também não quis ser identificado, disse que com a reabertura dos registros os moinhos poderiam até conseguir um volume semelhante ao obtido em 2007. “É só uma questão dos registros. Na verdade, é saber o que o pessoal vai liberar, saber para onde vai... O pessoal registrou, mas a gente não sabe para onde vai.”

O governo argentino ainda não anunciou os destinos das vendas já registradas. Segundo ele, é improvável que o Brasil fique desabastecido. “É só uma questão de não perder as oportunidades, tem bastante mercadoria, o problema vai ser fôlego, porque não são todos os moinhos que têm condições financeiras para receber mais do que um barco por mês”, disse.

Mesmo o segundo trader, mais otimista, também disse que os moinhos terão de analisar compras fora do Mercosul. “Vai entrar canadense, americano, quando der conta o pessoal vai olhar.”

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