7 de Fevereiro de 2008 / às 21:58 / 10 anos atrás

Fantasma da crítica ronda a Cuba de Raúl Castro

Por Esteban Israel

HAVANA (Reuters) - O fantasma da crítica ronda Cuba. E quem o deixou sair do armário foi Raúl Castro, que desde que substituiu no poder o convalescente irmão Fidel, há um ano e meio, insiste que a crítica é "essencial para avançar".

Os últimos a se manifestar foram os estudantes da Universidade de Ciências Informáticas (UCI), que crivaram o presidente do Parlamento, Ricardo Alarcón, com rajadas de perguntas inusualmente diretas e incômodas.

Um vídeo do encontro mostra como um estudante questiona a circulação de duas moedas e restrições para que os cubanos viajem para fora do país ou se hospedem em hotéis reservados a turistas.

"Eu quero que se explique o que é um problema de conjuntura e o que é um problema de conceito", disse Eliécer Avila, na gravação de 52 minutos que circula na ilha.

A reunião entre Alarcón e 200 estudantes foi transmitida ao vivo em circuito fechado aos 10.000 estudantes da UCI, um projeto pessoal de Fidel Castro.

"Por que o povo de Cuba (...) não conta com a possibilidade viável de ir a hotéis ou viajar a diferentes lugares do mundo?", perguntou Avila, dizendo que ele, por exemplo, sonha visitar o lugar da selva da Bolívia onde caiu o guerrilheiro Ernesto "Che" Guevara.

Alarcón lhe recorda os avanços sociais da revolução de 1959 e diz que seria bom se os cubanos pudessem viajar e ver "o mundo real", porque assim ninguém desejaria emigrar da ilha.

"Se todo o mundo, os 6 bilhões de habitantes, pudessem viajar para onde quisessem, o congestionamento nos ares do planeta seria enorme. Os que viajam são realmente uma minoria", afirmou.

Alarcón, um dos principais dirigentes do governo cubano, se declara um "perfeito ignorante" em relação aos mecanismos para eliminar a circulação de duas moedas.

"Não tenho resposta", diz sobre a pergunta de por quê as autoridades proibiram o acesso a serviços estrangeiros de correio eletrônico e chat que não podem controlar, como Yahoo ou Gmail.

No vídeo, o estudante questiona também a falta de um "intercâmbio mais aberto" entre as autoridades e o povo.

O governo justifica as limitações de acesso à Internet pelo embargo comercial dos Estados Unidos, que impede o país de se conectar a cabos de fibra ótica que passam a poucos quilômetros de suas costas.

PROIBIÇÕES

Raúl Castro reconheceu em dezembro passado, ante o Parlamento, que em Cuba há um "excesso de proibições (...) que fazem mais danos do que benefício".

Foi, disse ele, uma das queixas feitas pelos cubanos em um amplo debate nacional que ele mesmo promoveu, no fim de 2007, para diagnosticar os problemas do socialismo.

Ao coro de críticas contra as restrições em Cuba, se somou esta semana o compositor Silvio Rodriguez, um homem comprometido com a revolução, para quem Cuba vive um "momento de mudança".

"Estou esperando que este seja um processo de transição que nos leve a coisas positivas", disse a jornalistas.

O debate na UCI foi a segunda oportunidade em poucos dias em que os cubanos questionaram as autoridades.

Em janeiro, centenas de cubanos que trabalham para empresas estrangeiras, os mais bem pagos da ilha, desafiaram abertamente a decisão do governo de começar a lhes cobrar impostos sobre seus rendimentos não-declarados de moeda forte.

Um vídeo de uma reunião com funcionários do Ministério de Finanças mostra alguns empregados criticando a "base legal" da decisão e sendo aplaudidos efusivamente.

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